Outubro 31, 2003

BIBLIOTECAS INVISÍVEIS. O Rui Almeida, a propósito da nota que escrevi sobre as bibliotecas invisíveis — via Latinista Ilustre e O Almocreve das Petas — lembra, e bem, o divertido texto introdutório de Jorge de Sena às Qvybyrycas, de Frey Ioannes Garabatus (aliás António Quadros, aliás João Pedro Grabato Dias, aliás...) [edição ainda disponível, na Afrontamento]. O Rui Almeida enumera mesmo a lista de «livros inventados» por Sena. Borges está em todos nós.

Outubro 30, 2003

HAIFA. Haifa é uma cidade bonita, tolerante e cheia de céu. Por isso, quando há atentados em Haifa, cidade que mantém todas as religiões em boa convivência, a perturbação é maior. Mas a melhor das lições continua a ser dada pelos seus habitantes — que escolheram, para presidente da Câmara, um candidato do Shinui (e nunca do Likud, ou do Shaas, ou NRP), laico e liberal. Aqui, pelo menos, o medo não ganhou.

(Não sei se o Nuno Ramos de Almeida acha isto desequilibrado, claro — mas enfim.)

O PROBLEMA DA JUSTIÇA. Sobre o fenómeno da Casa Pia o único receio é o de que não se possa fazer justiça. Como não sou jurista, o emaranhado de leis decentes que permitem praticar injustiças é-me indiferente, mas compreendo-as. Compreendo os receios actuais sobre o segredo de justiça (que são sempre receios flutuantes, conforme a natureza e a inclinação ideológica dos arguidos), sobre a prisão preventiva (já os manifestei antes deste caso, na altura da aprovação da lei), sobre as fugas de informação, sobre os poderes dos juízes e do MP. Quando ouvi falar da «república dos juízes» também manifestei preocupação sobre a «república dos advogados» («ridículo», repreendeu-me um advogado num telejornal, citando o artigo — com aquele sorriso que faz de nós gente dispensável). E quando os sinais se começaram a avolumar, manifestei aqui outro receio: pela eventual preparação de um «acordo de bloco central» (esse «bloco central de interesses», sim) que se encarregaria de diluir o caso e de o desvalorizar, até não ser possível fazer nada com ele. Os últimos factos — em redor do julgamento de Bibi, por exemplo — contribuem para que esses receios sejam cada vez mais significativos. Oxalá nos enganemos, claro.

POSTA RESTANTE. Durante estes dias recebi vários mails — cá chegarão, com tempo.

PANTEÃO. Eu compreendo os receios do deputado José Lello sobre a cedência do Panteão Nacional para o lançamento do novo Harry Potter, e sou sensível à «elevação do lugar» (onde nunca fui, de resto, como qualquer português, aliás). De facto, o livro tem mais a ver com o Panteão do que o inverso: imagino Harry Potter percorrendo aquelas naves (terá naves?), escondendo-se atrás daquelas colunas (sim, parece que tem colunas), tremendo à lembrança daqueles nobres portugueses. Mas não consigo indignar-me nem recear a profanação. Acho que em relação aos portugueses que lá estão, a maior profanação é relegá-los para aquele silêncio todo. E oiço, então, as gargalhadas do miúdo, escondendo-se dos maus espíritos e da declaração de José Lello — e o esforço de Lello para não se rir de si próprio, ao perceber melhor o tom da sua indignação.

EQUILÍBRIOS. O Nuno Ramos de Almeida diz, na Ler, que o Aviz tem uma escrita «desequilibradamente empenhada quando se trata de defender Israel». Às vezes (pode até nem ser o caso de NRA), as ideias dos outros podem parecer ter outro equilíbrio, diferente do nosso. Mas é a vida.

DE VOLTA. Sim. Angola, Luanda, Benguela. Especialmente as acácias de Benguela, se querem saber.

Outubro 25, 2003

VARGAS LLOSA. Podes e deves Joel, podes e deves ser demagogo... Mas nenhuma visita de Llosa a Bagdad muda as certezas absolutas de ninguém.

DITOSA PÁTRIA. Já escrevi várias vezes sobre a «intoxicação televisiva, radiofónica e quejanda» a propósito do futebol (mesmo quando se trata do FC Porto). A inauguração do estádio do Benfica é outro dos episódios dessa histeria corrente. Vejam, oiçam: a «catedral», as toneladas de cimento, o estado da relva, as bifanas, a marcação do campo, a lama, os transportes alternativos, um vice-presidente a anunciar que toda a gente vai ser revistada (ele mencionou «armas», portugueses!, ele mencionou «armas», que vergonha), o glorioso trajecto da história do clube, os lugares sentados, a falta de estacionamento, os 65.000, o betão, as colunas, as vigas, os acessos, os uruguaios, os futuros lugares de estacionamento, a loja para as bandeiras, os taxistas, o controle UEFA, os vips, os vivas à Nação, a imprensa, os títulos vergonhosos de A Bola, os bigodes, o Barbas, o País unido e ressentido, a representação de Fornos de Algodres, o burro que vem de Elvas, a representação de Caracas, as mensagens do Luxemburgo, a gritaria, o campeonato, o espanhol, a chuva que não cai definitivamente, o mais belo da Europa, o Eusébio, a águia, a galinha, seja lá o que for. Ah, ditosa pátria.

CHUVA. A propósito deste fim-de-semana, o Terras do Nunca pergunta-se: «E a chuva, o que é?» Fica o primeiro parágrafo de Mazurca para Dos Muertos, de Camilo José Cela: «Llueve mansamente y sin parar, llueve sin ganas pero con una infinita paciencia, como toda la vida, llueve sobre la tierra que es del mismo color que el cielo, entre blando verde y blando gris ceniciento, y la raya del monte lleva ya mucho tiempo borrada.»

BIBLIOTECA INVISÍVEL. Descobri a Biblioteca Invisível através do sempre atento Latinista Ilustre, que, por sua vez, cita a orientação original do bom Almocreve: «The Invisible Library is a collection of books that only appear in other books. Within the library’s catalog you will find imaginary books, pseudobiblia, artifictions, fabled tomes, libris phantastica, and all manner of books unwritten, unread, unpublished, and unfound.» Davam para uma vida inteira, estes catálogos. Como o Latinista também gosta de Sterne, imagino o que nos poderíamos divertir a propósito de títulos como The Campaigns of Uncle Toby and Corporal Trim ou De Fartandi et Illustrandi Fallaciis, «pseudo-títulos» do Tristram Shandy. Cuidai-vos, críticos das gazetas! Mas há mais: como ambos gostamos de policiais, um dos caminhos seria avançarmos por Rex Stout ou a saborosa velhinha Dorothy L. Sayers, por exemplo. Lord Peter Wimsey, o personagem dos livros de Sayers, e Wolfe, o de Stout, poderiam encontrar-se para se irritarem mutuamente a propósito de hábitos alimentares. Um dos artigos que me proponho escrever, de parceria com o Latinista, é sobre um tema de magna importância: «o bacalhau em Rex Stout». Num dos seus livros, Archie Goodwin é avisado por Fritz Brenner, o cozinheiro, de que vão comer bacalhau. Brenner acrescenta (salvo erro) que se trata de comida dos portugueses do Bronx.

O PAPEL DO MÉDICO. O nosso bom doutor, que também anda feliz com os resultados do F.C. Porto, surpreende-se com o resultado das pesquisas do Google que vão dar ao seu blog. A mim enternecem-me sobretudo duas das que ele cita: «receitas de doces poveiros» e «felicidades médico». Os «doces poveiros» (as rabanadas, como faz questão de frisar o nosso clínico), então, merecem aplauso.

BRUXELAS. Muito bom o Planeta-Reboque, de Pedro Cruz Gomes. Por mail, o Pedro escreve que a questão do Português Suave poderia ser resolvida com uma demanda nos tribunais europeus — e cita um exemplo fornecido pelo País Relativo, sobre a atribuição do apelido ao filho de um casal hispano-belga, que revela até que ponto os merdosos de Bruxelas podem ir. O Pedro lembra ainda uma crónica de Alberto Pimenta: «Não me esqueço de uma saborosa crónica do Alberto Pimenta na TSF de boa memória a propósito da proibição emitida pela (ainda) CEE da venda de túbaros em restaurantes. Concluía mais ou menos assim: “Perguntar-me-ão os ouvintes o que é que uma questão menor de culinária tem a ver connosco... Pois se até nos tiram o colhão...”» O problema, caro Pedro, é que vai ser assim mesmo.

O FIM DA AVENTURA. O Cruzes Canhoto modificou a apresentação dos links no blog — através de livros; calhou ao Aviz um título de Graham Greene, O Fim da Aventura. É um livro que só honra o Aviz — tal como o autor. Graham Greene (um dos autores de que mais gosto) foi um passageiro fantástico da literatura (nem vale a pena rotulá-lo de «católico & espião» para o diminuir, como citam os seus críticos mais obsoletos), um criador de personagens — o coração da ficção. Era um homem que não gostava de pássaros e que até ao último livro manteve o seu tom de ironia, de melancolia e de espectador do mundo.

Outubro 24, 2003

A QUESTÃO «PORTUGUÊS SUAVE». Um esclarecimento. Quando abordei no Aviz a questão «Português Suave» não se tratava de defender o tabaco contra os não-fumadores, ou de iniciar uma discussão sobre os direitos dos não-fumadores. Era muito mais simples: por que é que os merdosos de Bruxelas tinham implicado com o «Suave» de «Português Suave»? A conversa alastrou e transformou-se, aos poucos, num debate sobre os malefícios do tabaco. Nunca alinhei nessa trapalhada — o cigarro faz mal. Ponto. Penso, cerca de duzentas vezes por ano, em deixar de fumar. A única coisa que me impede é o prazer que isso me dá. É um prazer imbecil, inútil. É provável que outros vícios, como o álcool, tenham um «lado bom» — questões cardiovasculares pelo meio —, um lado não totalmente prejudicial.
Simplesmente, no lugar onde trabalho, circulou um abaixo-assinado (não na minha redacção) sobre o assunto. Os termos são tão agressivos, tão seguros do mal que lhes fazem, tão segregadores e maldosos, que temo bastante que um mundo dominado por esta gente se pareça vagamente com um purgatório.
Para encerrar a questão: sim, os não-fumadores têm razão. E têm razão os puros de sangue e os puros de espírito, e os desportistas, os que fazem jogging, os que não comem fritos (não, isto não é piada ao Bruno), os que se levantam cedo, os que fazem ginástica, os que são certinhos, os que tomam vacina contra a gripe, os que só lêem boa literatura, os que vigiam o colesterol, os que são perfeitos, os que não bebem cerveja, tudo isso. Eles têm razão. Mas uma coisa me inquieta: por que é que os merdosos de Bruxelas nos tiraram o «Suave» ao «Português Suave»? Isso sim, é um problema. O resto (fumar vs. não-fumar) já se sabe como se resolve.

Outubro 23, 2003

A NOITE, O QUE É?, 20. A gripe, por exemplo. Nestas alturas ouvem-se todos os ruídos à volta, atravessa-se o fim da tarde com a sensação da cura, do abandono. Todos os ruídos estão dentro da cabeça, sobretudo aqueles que amamos. Chá, silêncio, um telefonema. Livros fechados. Coisas que não se suportam, por estarem distantes — as árvores, o riso, a relva, o mar, a comida, até a comida, a música, o vento na varanda.

RELIGIÕES. O Terras do Nunca esteve em Évora no encontro interreligioso promovido pela Fundação Eugénio de Almeida. O relato que faz é perfeito, confesso. Não se afasta muito daquele que tive, por telefone — e pela imprensa, lendo-a nas entrelinhas (embora o episódio suscitado pelo teólogo pré-deicida Carreira das Neves merecesse análise mais aprofundada). As conclusões a tirar da intervenção de Eduardo Lourenço são naturais; a recusa em reflectir sobre o religioso está relacionada com a recusa do religioso; o discurso do religioso é frequentemente desmobilizador e vazio. Há uma nota veemente no texto do João M. F., sobre a incapacidade de aquelas pessoas dialogarem com profundidade (o caso Carreira das Neves volta a revelar-se sintomático) — todos partem do princípio de que a ideia de um Deus monoteísta os salva de qualquer objecção. É um erro fatal. A história das religiões — como já escrevi aqui — não tem servido para «unir os povos». Pelo contrário, está ligada à história da barbárie de uma forma radical. A conversa sobre a «religião como factor de paz» é inócua; não leva a lado nenhum.

O REGRESSO DO PÂNTANO, AS AMEAÇAS DO BLOCO CENTRAL. [Artigo no J.N.] É muito provável que o presidente da República não tivesse feito o seu discurso de anteontem caso não fosse directamente visado pelo material que consta das escutas telefónicas — ainda bem que o fez dessa maneira aparentemente tranquila, respondendo às dúvidas dos cidadãos. Porque, como todos vamos concluindo, o retrato de conjunto paranóico em que se transformou o processo da Casa Pia é ainda pouco para o que veremos, para o que saberemos e para o que poderemos vir a suspeitar. É cada vez mais difícil sobreviver e manter a lucidez no meio dessa paranóia. Só assim se explicam algumas das intervenções políticas mais recentes e o complexo de exageros que diariamente o cidadão pode recolher pela Imprensa.
Portugal transformou-se no país da suspeita — sobre a justiça e as suas investigações, sobre os políticos e os seus encobrimentos e alianças, sobre a Imprensa e os seus «alinhamentos». No caso da Casa Pia, essa suspeita recai sobre mais duas entidades: os que estão a ser acusados de crime, e as vítimas desse crime. Não sei o que é pior, mas suspeito que a desvalorização do papel das testemunhas é um factor de perturbação que pode vir a tocar o limite do abjecto.
Se nos lembrarmos de outros casos semelhantes ocorridos — em Espanha —, o massacre das testemunhas conduziu àquilo que se teme que venha a acontecer em Portugal: a diluição do processo. A partir daí, a suspeita sobre as testemunhas leva ao fim da investigação. Claro como água. Seria conveniente proceder à comparação dos processos e dos acontecimentos, para evitar essa verdadeira hecatombe.
Provavelmente de forma involuntária, Francisco Louçã citou Guterres ao referir-se ao processo da pedofilia, usando as expressões «lama» e «pântano», depois do seu discurso na AR — a melhor intervenção parlamentar sobre o assunto. Em resumo, transformar o processo da Casa Pia num «processo político» consistiria, basicamente, em arrastar a política para o pântano em que se transformou o conjunto de pressões, desvarios e enormidades que têm vindo a ser produzidas todos os dias. Causa por isso alguma apreensão que Ana Gomes tenha — depois do «apelo ao silêncio», de António Costa — dado uma entrevista à Antena Um, em que reafirma que, para o PS, este será um «combate político». Só por isso, a realização de um congresso extraordinário do PS seria ou um ofício de defuntos ou uma sessão de psicanálise.
É curioso como algumas almas se têm mostrado mais sensíveis à violação do segredo de justiça e aos vários delírios judiciais, do que às consequências que a «pantanização» do processo podem vir a ter para o país inteiro. Essa permanente pantanização tem um objectivo claro — não apenas retirar peso e importância ao próprio caso (banalizando-o), mas também retirar credibilidade às testemunhas e vítimas.
Dentro de algumas semanas, caso a paranóia se mantenha, não faltarão vozes chamando a atenção para os prejuízos que o processo vai causar na imagem de Portugal (esquecendo que isto — o processo — é mesmo Portugal). Ora, a última coisa de que Portugal precisa, nestas circunstâncias, é de um acordo de Bloco Central para que tudo se dilua, tudo se perca em discussões entre juízes e advogados (cada qual com a sua república) e, afinal de contas, tudo permaneça neste limbo de suspeita. Tendo em conta que há vários indícios de que se pode preparar esse cenário, convém dizer, desde já, que esse será o pior dos sinais. A encenação dessa desistência moral da sociedade portuguesa (porque é disso que verdadeiramente se trata) não é tão absurda como isso. Basta ver a quem serve. [J.N.]

Outubro 22, 2003

ROADSHOW,3. Ana Gomes diz que este caso — o da Casa Pia — continuará a ser, para o PS, um «combate político» (entrevista de sexta-feira na Antena 1, ao fim da tarde). É por isso que eu temo, sinceramente, um acordo de Bloco Central sobre a matéria. Todos os sinais estão por aí, dispersos. Questão de marketing patriótico.

ROADSHOW, 2. José Pacheco Pereira tem (ainda) responsabilidades políticas no PSD — mas é bom que um político reconheça o perigo da duplicidade, como o faz no Abrupto: «DUPLICIDADE: Se há coisa que peço a mim próprio, e, se não fosse incréu, ao Senhor, é não cair na duplicidade na análise deste processo, todo ele impregnado de duplicidade. Tenho as minhas opiniões, gostos e antipatias, que é impossível não mostrar; posso cair em contradição, porque isso, às vezes, é inevitável, mas farei todo o possível para não ser dúplice.»

ROADSHOW. Por muito ridículo que isto* seja, tenho muita pena que não se faça o congresso extraordinário do PS.
[*Isto: esta onda de insanidade no PS.]

Outubro 21, 2003

SURREALISMO PERFEITO. Uma das melhores descrições do que pode ser uma sessão de lançamento de livros do António Lobo Antunes (na Litteraturhaus de Colónia) está no Desejo Casar, pelo Ricardo Esteves Correia. Eu já assisti a várias e diverti-me sempre.

NOITE, O QUE É?, 19. Vejo essa imagem por instantes. É só por instantes; abre-se a noite, atravessando o mar, o perfume basta, só o perfume, um fragmento, a pele, uma coisa proibida. Há coisas mais felizes, mas nenhuma como esta.

NOITE, O QUE É?, 18. A voz que apazigua, a voz que ri, a voz que entra por todo o lado como um vendaval, ou só como um recado, uma lembrança. No meio da insónia, escreve-se muitas vezes sobre essa voz que atravessa todos os tufões, as ondas, a melancolia, o assombro, a malícia, a penumbra, a voz a que se pertence sem saber. Voz no meio do sono, voz que acorda de repente, voz que traz búzios, voz no meio da cinza. Emudece-se, por essa voz. Emudece a noite.

Outubro 20, 2003

NOITE, O QUE É?, 17. Fico perdido — essa imagem enche a noite. Mês após mês, espero o mês seguinte. Não tem segredos, isto, mas tem mais sentido em segredo, como se apenas esse relâmpago se pudesse esconder no meio do céu.

O REGRESSO DA URDIDURA. A utilização da palavra «cabala» parece-me francamente má opção; quanto a «urdidura», acho ainda pior. Mas, ao ler o texto de Luís Delgado em que se pede a demissão de Souto Moura (por serem «de lá» que vêm as fugas de informação), numa tentativa de matar dois coelhos de uma só cajadada (demissão de Souto Moura, demissão de Ferro Rodrigues), acho melhor usar qualquer uma delas. Ou o Luís esqueceu o que manifestamente aprendeu durante anos de editor e director de jornais sobre as «fugas de informação» (ele e os que apontam apenas na direcção do procurador...) ou as virgens já não são o que eram.

NEM MAIS UM TOSTÃO. O Terras do Nunca viu o actor Rogério Samora, na televisão, emprestar a sua voz a mais um exercício de indignação (as coisas que se dizem...): «A cultura não interessa, somos merda.» Estavam em causa, suponho, os dinheirinhos do ministério da Cultura. Sabendo que a situação financeira do actor Rogério Samora é incompatível com o seu natural talento, tomando conhecimento da revelação do seu estado merdoso, e ainda tendo em conta a popularização de uma recente expressão portuguesa, declaremos em uníssono: «Estou-me cagando. A partir de agora é que não levas nem mais um tostão.»

NOITE. «Noite, o fim da noite, o hiato entre a manhã e o enervamento.» [Vasco Graça Moura]

NOITE, O QUE É?, 16. Agora, que regressou o frio, a noite é ainda mais difícil. Eles pensam que ela significa apenas escuridão, aquele período entre a luz mais intensa e a que vem, como um aviso, trazer a insónia. Não é assim: há os ruídos da noite, as imagens que ela traz como um incêndio, todas as coisas do céu, todas as coisas do mar, uma lembrança, um esquecimento. A espuma das noites. Coisas que não se suportam, por estarem distantes.

POLÍTICA À PORTUGUESA. As coisas estão a ficar indecorosas, mas, de qualquer modo, vale a pena assistir.
Em Traições, de Philip Roth (Bertrand), alguém pergunta: «Estás interessada em política por seres polaca ou porque te interessas por política?» Ela responde: «Acho que, principalmente, porque sou polaca.» Perguntem aí fora.

Outubro 19, 2003

CULTURA POPULAR. Ouço, na Antena 2, um programa com educadoras especializadas em «imaginação» e «criatividade». Uma delas, convicta, diz que se as pessoas fossem bem ensinadas ou preparadas, um «bom livro» bateria sempre o Game Boy, uma «boa conversa» bateria sempre a televisão, um «bom disco» bateria sempre os Pokémon. A nossa capacidade para rir é sempre posta à prova.

CANELADA. De resto, a velocidade a que o País ensandece parece-me normal. A capacidade de ficar chocado ou perturbado ultrapassou há muito o «português médio». Esta vaga onda de sandice vai aumentar, aumentar, aumentar. Vai andar tudo «à canelada».

OS POLÍTICOS E O DIREITO DE MENTIR. [Actualização para um tema discutido com o Mar Salgado, o Grande Loja do Queijo Limiano, o Bloguítica, o Glória Fácil, o Guerra e Pas, o Adufe, entre muitos outros.] Há anos (nem vale a pena lembrar...), a The New Republic, que não podia ser acusada, de modo nenhum, suspeita de fazer favores à Casa Branca de Clinton, publicava um artigo sobre o adultério em casos políticos conhecidos. Só a lista de políticos americanos (alguns deles, até brilhantes para o seu contexto) que sucumbiu devido à prática do adultério dava para encher uma boa página da revista. A tese era muito simples: o adultério é uma prática social «recriminável e condenável», e é suposto ninguém se gabar da sua prática. Em nenhum caso um político devia admitir ter caído nas malhas do pecado. E, em termos públicos, o que podia fazer seria negar, negar, negar até ao fim. «Lie!», era o título de capa da revista. Nem de propósito. Dois meses depois desse artigo, aproximadamente, a América festejava «mais um caso» de Bill Clinton. Um dos editores do Washington Post, feliz, comentava para um colega editor do sereníssimo e discreto Financial Times: «Há vinte anos que não tínhamos uma história assim.» Vale a pena dar mais exemplos: os apresentadores dos principais telejornais, nessa altura recrutados para Havana, onde acompanhariam a visita do Papa, voltaram para casa no primeiro avião — nenhum deles queria deixar escapar a crise nem, evidentemente, o disparo das audiências. A declaração mais preciosa vem, no entanto, do homem que acompanhou, para a CBS, o «caso Watergate»: «Senti hoje o mesmo cheiro a sangue que havia na Casa Branca em 1973.»
Este «cheiro a sangue» compreende-se. Do modo como estão as coisas, um telejornal, tal como a direita religiosa e republicana da altura, é capaz de tudo. Tudo estaria cheio de palavras como «alegado», «suposto», «suspeição», «atribuído a», «infere-se que», «é possível que» e outras expressões que a imprensa e a sociedade usam com abundância e originalidade quando sabem que não devem dar como certo um rumor que não tem interesse nenhum.

[Na altura, escrevi que a culpa era dos democratas. Não porque Clinton não fosse capaz de esfaquear, metódica e paulatinamente, o seu matrimónio — mas porque, até hoje, toda a campanha política pela «absoluta transparência» teria de dar no que sabemos. A primeira grande vítima foi, justamente, Bill Clinton. O «caso do juiz Clarence e de Anita Hill» (que tinha pormenores disparatados) foi apenas um levíssimo quadro que anunciava tormentas maiores para o género humano e para a liberdade. O que esteve em causa, com «o caso Clinton-rabo-de-saias», não era o temperamento do presidente americano enquanto «caso patológico». Toda a gente de bom-senso e de cultura mediana tem uma ideia do assunto. O que estava em causa, precisamente, era a liberdade e a chamada «esfera da privacidade» — de onde resulta a «tese do perjúrio». Clinton tinha o direito de mentir em matéria do chamado «foro íntimo». E tinha o dever de se demitir se aparecessem, depois disso, os testemunhos sobre os delírios na Sala Oval. Um presidente é um presidente.]

Agustina Bessa-Luís, numa crónica sobre o «caso Dreyfus» justificava algumas hecatombes e movimentos ideológicos por uma espécie de abundância do ódio em certos períodos históricos. Ora aí está.

O PAÍS, ESTADO GERAL. Eu compreendo a inquietação de alguns blogs amigos, como o Adufe, o A Metamorfose, o Faccioso, o Bloguítica Nacional — que debatem o papel «não- interventor» do presidente da República. Há, portanto, quem defenda um papel mais activo do presidente neste «caso» (Casa Pia, justiça, fugas de informação). O dr. Sampaio já esclareceu que só fala do assunto quando entender, e faz bem. Mas se o seu discurso de Braga não tinha destinatário nem foi uma intervenção no «caso», não sei o que é «intervir» mesmo. Ou também acham que o presidente só falou «sobre princípios gerais» naquelas circunstâncias? O grande perigo da «moralização» vinda de Belém é a suspeita da sua origem e da sua «inclinação».

MEPHISTO. Eu gosto do Mephistopheles. É mau como as cobras. Já fazia falta. Todos levamos (fui o primeiro, aliás).

AH, LAMPIÕES. Meu caro J.C.B., nem sei que te diga quando escreves que «nem sabes a raiva que me faz saber que o FCP é melhor que nós. Ter que reconhecê-lo...» Pensei nisso naqueles instantes — o golo de Derlei, o golo de Deco, o golo de César Peixoto, o golo de Marco Ferreira — e, depois, quando a SIC apresentou as biografias dos três candidatos à presidência do Benfica. Nem sei que te diga. Mas reconheço a extrema bondade do teu texto— eu sei que querias escrever sobre a polémica do Português Suave, eu sei: «O Futebol Clube do Porto está a perder com o Belenenses. Saio da sala da televisão para comprar cigarros, subo o degrau que leva à outra sala, não tenho dinheiro trocado, troco uma nota de cinco euros, falo por instantes com o empregado de balcão, acabo por beber uma imperial, meto as moedas na máquina, desço à sala, sento-me na mesa, acendo um cigarro e olho de novo a televisão: o Porto ganha por 4-1. Se isto não é prova suficiente dos malefícios do tabaco, vou ali e já venho...» Para a semana encontramo-nos em Faro e fazemos contas.

Já o bom Artur, do blog benfiquista Nietzsche & Schopenhauer, disse que «não escreveria nem mais uma linha sobre as eleições presidenciais do Benfica». Na frase seguinte esclarece: «Tal não é possível. Há ali muita matéria-prima para aproveitar. Por exemplo, os sonhos dos três candidatos.[…] Coisa para mil páginas, no mínimo. O grau de estupidez vai muito avançado. Só não está completo porque o senhor dos pneus ainda não avançou com o nome da senhora Judite de Sousa para primeira-dama. Aí sim, estava o circo montado.»
Nem sei que te diga, meu amigo, mas a vida é assim.

PORTUGUÊS SUAVE, 12. [OU: PARA ACABAR DE VEZ COM A CULTURA.] Contribuição verdadeiramente importante para o debate, a do Mistério, que arruma a questão com sobriedade:«O barulho que andam a fazer à volta do Português Suave já saiu das marcas. Pessoas tão eruditas a queimarem um tempo tão precioso. Que mata, que incomoda, que sabe bem, que acalma... É só fumaça. Li que o cannabis tem poderes terapêuticos. Abram um texto sobre isso e levem as competentes forças do sistema a colocarem à venda essa erva com esta inscrição na embalagem: “Faz bem à saúde.”»

PORTUGUÊS SUAVE, 11. O médico Paulo Caldeira, do Dias Que Voam tinha já publicado um mail no Aviz sobre a questão «fumador passivo», em resposta e contra-argumento ao que o nosso médico da blogosfera. Nos seus blogs continua a polémica, que se pode visitar com proveito e exemplo. O Paulo mantém as suas dúvidas sobre a natureza e vitimização do «fumador passivo». E conclui: «O único fundamento é a ditadura da maioria. Não concordo nada que se tente atingir o objectivo de reduzir o número de fumadores, lançando sobre estes a ira dos não-fumadores, à custa do mito (até à data) do fumador passivo. É apenas o caminho mais fácil.»
Quanto ao Médico, confessa que «como fumador passivo, adoro o odor do fumo do tabaco, ainda me deixa muitas saudades. E já lá vão 20 anos». Num dos seus textos, reproduz textos e conclusões de estudos de algumas organizações científicas sobre a matéria. Caro doutor: seguirá em breve uma amostra de charutos.

PORTUGUÊS SUAVE, 10. Há mais notícias pela blogosfera sobre este debate — que começou por ser um protesto pela forma como a rapaziada de Bruxelas tirou o Suave ao Português Suave — em redor da cigarrada. O Faccioso juntou-se à lista, e bem:

«Posts em vários blogs sobre fumos, fumaças e português suave, lembraram-me de uma coisa. Diz-se agora que a dieta de baixas calorias, acrescenta anos à nossa vida. O problema é que retira a vida aos nossos anos. Não sei se é verdade. Mas com o fumo, como será? Estou a ver J.C.F.e o FJV puxando largas fumaças no meio de um sorriso. Será a mesma questão? E, no entanto, preferia não fumar.»
Também eu, também eu. Um H. Upmann que o RAP me deu há uns tempos, já foi.

O Hugo, do Ford Mustang retoma a questão do Português Suave propriamente dito:

«Será que se os senhores de Bruxelas se conseguiriam redimir se confessassem serem suaves as suas capacidades de análise e discernimento? O Aviz e o Nuno, do Klepsidra — entre outros — já disseram mais […] sobre o assunto: é a noção do politicamente correcto levada a um extremo patético. Tenho pena que a designação desta marca — que, de qualquer forma, está em extinção — desapareça antes do iminente fim do seu mercado. Teria preferido uma morte natural e completa em vez deste definhar embaraçoso. Duma coisa estou certo: o meu pai fuma Português Suave há 30 anos e é Português Suave que ele vai continuar a pedir ao balcão.»

SHOAH. O João Carvalho Fernandes publicou no seu Fumaças (que também aderiu à vaga de transferências para o Weblog) um texto importante, o «Nós recordamos», evocando o momento em que o Vaticano, através de João Paulo II, tratou a Shoah, o holocausto, e as relações com o judaísmo. Era bom que alguns representantes portugueses da Igreja católica pudessem ter lido o texto que o bom J.C.F. em boa hora publica.

DANIEL FARIA, POEMAS. Um dos motivos para dar um salto até ao Extravaganza, para quem não tem ainda o livro em casa (edição da Quási), é que aí se podem ler alguns poemas de Daniel Faria.

Outubro 18, 2003

NOVIDADES DA BLOGOSFERA, 1: O PEDRO. O Pedro regressou ao seu blog. Já não era sem tempo. E fê-lo com três textos para discutir por aqui e por ali. O Guerra e Paz regressou, isso é uma boa novidade. Mais coisas para ler.

Outubro 17, 2003

PORTUGUÊS SUAVE, 9. O «fundamentalismo» é o tema do mail de João Raposo sobre este tema infindável.«Quando tinha 13 anos fumei um maço de Monserrate num dia. Não gostei. Nunca mais fumei, já lá vão quase 40 anos. Devo, no entanto, confessar-lhe que, dado o extremoso cuidado dos nossos fundamentalistas anti-tabagistas, estou a pensar seriamente em começar a fumar. De que me serve a saúde sem liberdade?»

O N.M.M., do Nortadas traz também um testemunho pessoal: «Acabo de ler as reacções fanáticas que recolheu. Pouco ou nada há a dizer senão que está em perfeita sintonia com esta «nova modernidade» do povo português — de suave, nada; de, agressivo, muito. Talvez o nome Português Agressivo esteja até mais de acordo com os tempos. […] O certo é que, durante muitos anos, fumei de Setembro à Páscoa — há seis anos deixei de intervalar as minhas épocas de fumo, asneira grossa que senti bem no meu rendimento geral; o pior é que, por muito estúpido que possa ter sido, uma das razões que mais retirou motivação para deixar de fumar foi, exactamente, essa pressão desmedida, fanática e irracional contra os fumadores e o fumo dos cigarros, a paranóia do fumador passivo (onde o fumo do cigarro mata enquanto os outros desinfectam)… Foi particularmente difícil deixar de fumar na passagem do ano de 2002/03: além de abdicar do tabaco o saber que ainda podia vir a figurar como uma vitória dos fumodamentalistas…..foi duro.»

Outubro 16, 2003

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 14. O Liberdade de Expressão tem uma posição discordante nesta matéria. Acha que «actualmente, qualquer editora é livre para propor manuais escolares. Quando uma eitora propõe um manual arrisca o seu próprio capital, não arrisca dinheiros públicos nenhuns. A editora pode até não vender um único exemplar.» Claro que a sua posição não é redutível a este extracto. O Mata-Mouros respondeu e hoje acrescenta um texto intitulado «Pederastia cultural, manuais escolares, liberdade e responsabilidade». Um excelente contributo para esta discussão.

PORTUGUÊS SUAVE, 8. Há ainda sequelas da conversa sobre tabagismo vs. anti-tabagismo. Raquel envia um mail sobre o assunto:

«Considero-me aquilo que uma amiga chama de "fumadora intermitente". Isto porque tenho o hábito de fumar de vez em quando (às vezes muito), mas também me acontece ficar dias, semanas, possivelmente meses sem pegar num cigarro. Não me faz confusão, não me aflige, não sinto ressaca. Fumo por prazer, portanto, embora admita que não é muito fácil identificar a natureza desse prazer. O que me leva a escrever foi o facto de ter lido que 90% dos mails que recebe são de anti-tabagistas radicais e os já tão estereotipados comentários do costume — como por exemplo o do “cúmplice no assassinato”... — isso sim, faz-me muita confusão. […] Não fumo onde é proibido fumar, não fumo junto de quem está a saborear uma refeição, não fumo se me pedirem educadamente para não o fazer. Também não gostaria que me impedissem de fumar um cigarro (charuto ainda não sou capaz, confesso) dentro da minha própria casa. Sinceramente provoam-me uma sensação de urticária esses ataques pseudo-moralistas, e seus argumentos enfadonhos, sempre os mesmos para todos os casos[…]. Acredito que é legítimo que existam campanhas anti-tabagistas em prol de um benefício comum, em termos de consciencialização pública. Não acredito, contudo, na imposição, na desapropriação de direitos. […] Seria bom que o susto do «suave» retirado ao «português» fosse suficiente para libertar do vício.»

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 13. Por mail, M. Gaspar faz chegar mais um exemplo de gloriosas páginas de livros escolares portugueses — «tremei, aprendentes!», como diria o ex-ministro Roberto Carneiro (eu juro que ouvi o Eng.º Roberto Carneiro chamar «aprendentes» aos alunos...).

«Ainda a propósito da má qualidade dos manuais escolares e, de um modo geral, da maioria das publicações de apoio à nossa profissão, envio-lhe uns excertos de um livrinho que comprei, na semana passada. Trata-se de A Construção do Corpo ou Exemplos de Escrita Criativa, de José Gil e Isabel Cristóvam-Bellmann, da Porto Editora. Comprei-o para alargar os meus conhecimentos, para tirar ideias e diversificar as minhas estratégias na sala de aula. Agora, lamento o dinheiro que gastei... Eis algumas pérolas: "Só lê aquele que assim o desejar e de livre vontade." (p.22); "Podemos afirmar que a escrita criativa é um método. Quem escreve criativamente não tem obrigatoriamente ainda que estar a produzir escrita criativa. A escrita criativa apresenta-se como sendo composta por três componentes:..." (pág.20) ; "Com o texto não termina a escrita criativa. Valerá sempre a pena continuar a pensar e repensar aquilo que se poderá fazer mais com o texto. O texto puderá ser ponto de partida..." (pág.24) ; "Os três bloqueadores da escrita são: a perfeicção; o medo; a arrogância." (pág.35. Nota: os erros ortográficos não são meus.»

PERDER A INOCÊNCIA. O Paulo Gorjão, do Bloguítica Nacional, refere a minha crónica de hoje no JN, lançando-me um repto para que comente as «duas excepções» ao princípio de que «a vida particular de um politico é isso mesmo: particular». O Paulo enumera-as: 1) «A primeira abrange situações em que o político esteja envolvido em actividades que violem o ordenamento jurídico vigente na altura.»; 2) «A segunda refere-se a comportamentos que o político condene no seu discurso político, mas que pratique na sua vida privada.» Como escrevi na crónica, «quem pratica crimes não pode nem deve deixar de ser julgado, independentemente das suas preferências ou aventuras sexuais». Mantenho que a vida do procurador Starr, em Portugal, seria muito difícil. Quanto ao segundo aspecto estou, por princípio, de acordo, mas levanta sérios problemas, nomeadamente quanto à identificação dos «vícios privados» diante das «públicas virtudes» dos políticos. Melhor: estou de acordo, como princípio, mas parece-me difícil estabelecer os critérios que identifiquem essa «discordância» entre o público & o privado. Por exemplo: é legítimo explorar ou investigar a vida privada de um político para ver se ela está conforme ao seu discurso público? Não. Acho, caro Paulo, que essa segunda excepção está exactamente sobre a linha que eu defini na própria crónica:«Há um risco aparentemente invisível de que convém não nos aproximarmos: o da moralização da vida pública através da Imprensa, por exemplo, é um deles. Se andar atrás de jovens no Parque Eduardo VII é criticável, e pode configurar um ilícito de certa gravidade, um passo em frente seria suficiente para cairmos na paranóia: um ministro que se dedica a actividades de comércio carnal com uma actriz, uma deputada que negoceia afectos com um deputado de outra bancada, um político apanhado em Bali na companhia de uma senhora. É importante definir os critérios dessa avaliação. Poderá um fumador ser ministro? Poderá um praticante de ioga ser juiz de um tribunal? Poderá um motard sentar-se no Parlamento?»

Outro exemplo, certamente confrangedor: um político que mantenha um discurso «moralizador» — e que se refira explícita e criticamente aos «adúlteros» ou ao «adultério», digamos — e que seja visto num hotel do Djibouti na companhia de uma dama, «indiciando adultério», deverá ser denunciado desse ponto de vista? Esse é uma pergunta que decorre dessa «segunda excepção». Eu percebo a ideia de «hipocrisia», claro — mas há na expressão «vida privada» um carácter absoluto e intransigente. Tenho, por isso, muitas dúvidas sobre «o grau de privacidade» a estabelecer. Se, por exemplo, um deputado aprovar legislação probicionista (anti-tabagista) no Parlamento, e for visto a fumar um charuto no Café de São Bento, ao lado da Assembleia — teria menos dúvidas (digamos que eu próprio tomaria a iniciativa de denunciar a baforada criminosa). Nos EUA seria necessária a presença de um porta-voz para esclarecer que o senhor deputado «não inalou».

É desejável um certo bom-senso, mesmo em matéria de princípios. Daí que, de entre as raras virtudes portugueses, eu ache louvável esse bom-senso. Lembra-se da campanha de rumores e de piadas sobre Sá Carneiro & Snu Abecassis? Na altura, a imprensa (o então semanário O Jornal, por exemplo) noticiava com tom «escandalizado» que havia figuras da igreja católica muito incomodadas com essa relação «extra-matrimonial». E que tinha o público a ver com isso?

Também por isso, embora o texto de José António Saraiva, no Expresso, não seja «moralista» ou «moralizador», é necessário ter algum bom-senso para que não se passem a vigiar os políticos tendo em conta a sua «vida privada». A menos, claro, que abram «as portas da sua casa e do seu coração» à Caras — então, a partir daí, que levem ambos: os políticos que acederam em posar nessas páginas e os jornalistas que viajaram para a ilha brasileira onde a Caras leva as celebridades.

DINAMARQUESA. O Terras do Nunca confirma no seu blog que recebeu a mensagem de uma dinamarquesa da Kristi Kirke København. «Havde vi glæden af et besøg?», perguntou o João. Acho indelicado. Perguntar a uma dinamarquesa se quer «glæden af et besøg» é pouco próprio. «Comer um besugo»? Ó João...

Outubro 15, 2003

AH, MARRETA! Esquecia-me do Cozinheiro Sueco: diz-se que recebeu recentemente uma mensagem de Annika Billström: «Som finansborgarråd i Stockholm vill jag skicka en hälsning med mitt fulla stöd till Stockholm Pride...». Annika Billström é considerada na Suécia «finansborgarråd i Stockholms stad ger sitt fulla stöd till festvialen» Parece que sim. O nosso cozinheiro da Covilhã respondeu à altura: «Hon skickar följande hälsning till arrangörerna, festivaldeltagarna, besökarna och till alla andra som återigen visar upp ett Stockholm som står för öppenhet, rättvisa och stolthet.» Coisas das terras altas. Não sabia que o Cozinheiro tinha sido visto na Stockholm Pride.

A SAGA DAS LÍNGUAS DO NORTE. Sim, isso é muito bonito, mas, como diz o Morgunblaðið, de Reykjavík, «mótframbjóðandi sonar núverandi forseta Aserbaídsjan hefur lýst sig sigurvegara í forsetakosningunum sem fram fóru í landinu í dag þrátt fyrir að tölur sýni að forsetasonurinn, Ilham Aliyev, hafi farið með sigur af hólmi». Isso devia preocupar-nos a todos.
Dito isto, fim de delírio.

AFINAL NÃO ERA ISSO. Afinal, comenta-se aqui ao lado, o maior problema teve-o o Terras do Nunca que foi atacado por uma leitora dinamarquesa da Igreja de Cristo de Copenhaga (Kristi Kirke København). Dizia ela que «en første lørdag og søndag i oktober havde vi glæden af et besøg fra vores søstermenighed i Tyskland. Vi lærte meget om at have en fælles vision, samt om at bygge tillid og vise respekt». Se o João andar mal disposto estes dias, saibam que este vírus dinamarquês fez estragos.

HUNGRIA? QUAL HUNGRIA? O Alberto Gonçalves, do Homem-a-Dias foi «googlizado» na Hungria («szó túl általános, ezért kimaradt a keresésbol», comenta ele). Ó Alberto, chato a sério era se te apanhassem na Finlândia — e se se tratasse de um físico nuclear, uma vez que se sabe que «suomen Fyysikkoseuran tarkoituksena on ollut herättää harrastusta fysiikkaan ja edistää sen tuntemusta. Seura tukee fysiikan tutkimusta, järjestää luento». Isso sim, Alberto, era chato.

LEMBRAR. O Jorge Reis-Sá entrou na blogosfera com o Lembrar. Recomendo também que se visite um recente «anjo açoriano».

DESÂNIMO. Estas questões podem ser vistas como «anti-portuguesas» (um pouco à maneira como o governo está a sugerir que lê o incidente «Time-Bragança», a última trapalhada para rir). O Alexandre Monteiro escreve um longo mail, que pode ser encontrado no seu blog . A ideia do Alexandre é «estabelecer uma comparação dos comportamentos e modos de ser dos Portugueses do antigamente com os de hoje» — «encontraremos certamente bastantes semelhanças e exemplos». Vale a pena dar lá um salto para ler esta perspectiva histórica.

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 12. O Mário Filipe Pires, do Retorta, esclarece por mail, a propósito do seu texto publicado no Aviz [«Uma Onda de Parvoíce, 10.»]. Escreve o Mário Filipe Pires: «Quando escrevi que a questão dos manuais seria secundária, não me estava a referir aqueles que apresentam erros técnicos. Nesses casos, os editores que editam manuais com falhas técnicas deviam sofrer uma penalidade do Ministério da Educação, nomeadamente colocando as suas edições nas àreas com falhas em quarentena durante um ano por exemplo.»

TELEVISÃO E PARVOÍCE, 2. Evidentemente que há o risco do apelo à censura, quando falamos desta maneira. Sim, temos medo da censura. Prezamos a liberdade, é o valor mais alto. Somos tolerantes. Prezamos a liberdade que permite termos programas de merda em horário nobre. Somos tolerantes com os pândegos e alarves que poluem a vida. Somos tolerantes com o erro. Somos demasiado tolerantes com a mediocridade. Tratamos como génios uns fedelhos intoleráveis incapazes de soletrar. Não damos valor à idade. Não damos valor ao trabalho, ao esforço, à imaginação, à cultura. Esse país razoavelmente interessante acabou. Provavelmente acabou há muito, no meio da gritaria da televisão, do ruído dessa canalha que se apoderou dos centros de decisão, do jet set e dos comissariados do gosto. O país está entregue a eles. Que o devorem e lhes faça bom proveito. Podemos começar a emigrar.

TELEVISÃO E PARVOÍCE. O mail de Jorge Camões levanta a questão da televisão. Vale a pena pensar no assunto — mas em regime de permanência. As televisões fornevem uma explicação para essas «ondas de parvoíce»: aquele país razoavelmente interessante, de que se fala de vez em quando, acabou. As elites, incultas e sórdidas, valorizadas na medida em que são muito incultas e ainda mais sórdidas, deliram com o espectáculo. O Estado demite-se da única responsabilidade que, em boa verdade, devia ter – proteger os cidadãos; em vez disso, o Estado detesta os cidadãos, odeia os cidadãos, é alérgico aos cidadãos. Que televisão queriam para esse país?
A televisão está como está por culpa das elites que se demitiram. Porque a mediocridade da classe dirigente é tão escandalosa que ninguém se atreveu a denunciar o baixo nível da nossa vida pública. Porque essa mediocridade se instalou nas universidades onde meninos selvagens e de imbecis se exercitam nas «praxes académicas» em vez de serem detidos pela polícia de costumes. Essa mediocridade instalou-se na vida política de formas tão subtis ou tão explícitas que é absurdo protestar sem correr o risco de ser alvo de chacota; instalou-se na vida cultural, onde se promovem fraudes com o patrocínio de hierofantes hirsutos, cheios de si e do seu poder, imunes a qualquer denúncia; instalou-se, naturalmente, na televisão, onde bandos de jornalistas incultos, incapazes de pronunciar correctamente frases de português médio, inaptos para escreverem, diminuídos na sua capacidade de aprender, estudar ou investigar, aparecem promovidos nos ecrãs. A mediocridade instalou-se na escola, em geral – onde se «facilita a vida» aos meninos e meninas, e onde (apesar do esforço dos professores) os ministérios de burocratas nunca conseguiram impor uma cultura de rigor e de excelência. Em vez disso preferiram uma escola «destinada a formar cidadãos», esquecendo-se que não há cidadãos de pleno direito incultos e com má preparação científica. É uma mediocridade que deve tudo à classe dirigente do país, a uma canalha sórdida com mau sotaque e hábitos preguiçosos, incapaz de recitar um verso de Camões ou de escrever sem erros ortográficos uma redacção de segundo ciclo.

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 11.Para Jorge Camões, que entra na discussão sobre o assunto, a situação é natural, posição que eu defendo há muito, sobretudo quando aparecem almas torturadas, chocadas — e, geralmente, esganiçadas —, protestando contra as várias «ondas de parvoíce». Diz isto, o mail de Jorge Camões (que mantém o blog Ser Português (Ter Que):

«Há um aspecto que me parece interessante, mas que não tem sido abordado na questão dos manuais escolares: é a inevitabilidade de aparecerem coisas como estão a aparecer. Nos Estados Unidos, os grupos de pressão estão a levar os manuais a níveis absurdos do politicamente correcto, de acordo com o The Language Police. Em Portugal, onde não há grupos de pressão instituídos como tal, há um poder evidente, o da televisão.
A televisão molda comportamentos, e coisas como o Big Brother espalham-se como virus, em especial em organismos frágeis, como a escola, ainda mais fragilizados com programas de disciplinas que objectivamente convidam os monstros a entrar. Portugal trata mal os velhos, educa mal os novos e está-se nas tintas para os restantes. O nível de analfabetismo funcional tende para infinito e o poder de compra tende para zero. As opções pedagógicas têm sido catastróficas.
Neste cenário, em que as televisões são, para muitos, a única fonte de informação e entertenimento, a ausência de limites aos conteúdos parece-me um crime ao nível do comércio de droga. Os limites deveriam ser auto-impostos e pelos vistos não são, e o Estado não tem coragem para os impor (começando por não fazer cumprir os limites de publicidade). Neste sentido, o aparecimento do Big Brother nos manuais escolares parece-me uma consequência natural. Se não secamos a fonte nem construimos barragens decentes, o resultado é este, e será sempre.»

SILÊNCIOS RESPEITÁVEIS, CLARO. Claro que um blog tem direito ao seu silêncio. Já aqui escrevi sobre esse direito ao silêncio e à desregulação permanente dos blogs. E mesmo o direito a sentirem-se cansados. A pensarem — várias vezes por dia — que «isto» não tem sentido. Mas o que se passa com o silêncio do Pedro Mexia e do Carlos Vaz Marques?

DIVERGÊNCIA. O João interroga-se: por que é que o sitemeter do Aviz (que, conforme o prometido, termina hoje as suas funções, despedindo-se sem alarido) se chama «divergência»? Ó João, nem imaginas?

VENENO SIMPLES. O dr. Soares anda muito calado, mas feliz. Ana Gomes está a fazer o trabalho e, daqui a uns tempos, pouco sobrará deste PS. «É a vida», como diria um dos seus ódios de estimação.

FALAR, NÃO FALAR. Do muito que se devia aprender sobre esta questão da justiça/pedofilia/etc., o Almocreve das Petas resumiu o essencial, citando o mais importante dos parágrafos do Tratactus de Wittgenstein. Nem mais. «Do que não se pode falar, é melhor calar-se.»

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 10. Escreve o Mário Filipe Pires (do Retorta), por mail: «A questão da educação tem sido demasiadas vezes deixada a cargo de técnicos de gabinete, que planeiam sem se preocuparem com a adequação das matérias. Na formação profissional digna desse nome, as questões pedagógicas e de conteúdo são pensadas em função das competências que se quer que os formandos adquiram e da duração das acções de formação. A educação formal não perdia nada se olhasse com olhos de ver para os métodos e formas de actuar da formação profissional. A questão dos manuais até a posso considerar secundária, muito mais fulcral é a questão da preparação dos professores e das condições de trabalho que lhes são dadas. Professores excepcionais haverá poucos, infelizmente, mas a maioria deles terão competência e empenho para conseguirem desempenhar a sua função com brio. Gostava também de um modelo de educação, onde a prioridade não fosse a memorização de dados, mas a capacidade de relacionar factos e resolver problemas utilizando o conhecimento actual como base para o pensamento. Não sei se algum grau de ensino em Portugal nos educa na verdadeira acepção do termo.»

Há um problema, caro Mário Filipe: a questão dos manuais não é secundária. Não o digo por causa da obsessão com o livro, mas porque tem de existir uma lei na escola, e essa lei, aparentemente frágil, é também a do livro. O que se passará na cabeça de miúdos que têm de corrigir — este é um exemplo de entre os muitos que têm chegado ao Aviz — a tabuada no livrinho de fichas, porque aí vem errada? E daqueles que aprendem, num outro livro de fichas/exercícios, que o plural de «qualquer» é «quaisqueres»? E o que devia acontecer com aquele professor que escreve «plo» em vez de «pelo» no livro de sumários — e, tendo alguém tentado corrigi-lo, diz que «tanto lhe faz»? Esse é um problema. Não escreverei sobre pedagogia e sobre a «transmissão de valores» — acho que a pedagogia é para os professores e que a «transmissão de valores» é assunto familiar. Mas estas coisas são simples: deve, ou não, o Ministério da Educação penalizar os editores e autores de manuais escolares onde se detectem erros desta natureza e de semelhante ou superior gravidade? Ora, eu penso que o Ministério deve garantir aos cidadãos, através de um grupo de trabalho permanente, que estas coisas não passem em branco.

Outubro 14, 2003

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 9. Acho que alguns dos contributos desta discussão poderão ser enviados ao Ministro da Educação — como sinal de uma preocupação e como claro protesto a propósito da questão dos manuais escolares. Sinal de que a «blogosfera» se preocupa. Leia-se, por exemplo, o contributo de Pedro Freitas (professor universitário, do departamento de Matemática da Faculdade de Ciências de Lisboa) que se junta à discussão sobre a «onda de parvoíce», e escreve sobre o assunto, por mail:

«Orientei estágios de alunas que viriam a dar aulas no secundário. Nessa altura dei-me conta que, atrás do problema da falta de exactidão dos manuais (cheguei a ver um em que as definições das funções trigonométricas tangente e cotangente estavam trocadas), há um uma fúria de tornar as coisas mais próximas dos alunos, num "ensino centrado no aluno", como se ouve muito, por vezes em deterimento dos conteúdos. Ora, eu não sou contra a atenção pedagógica necessária, ao aluno como pessoa, e à sua situação social e psicológica — há uns anos usavam-se manuais de matemática no liceu que, digo-o com segurança, ninguém percebia (pelo menos em parte). Mas agora caiu-se no extremo oposto, julgo eu que devido a uma tendência pós-moderna exagerada, mal amadurecida e mal interpretada, que invadiu as escolas de educação. Os conteúdos são relativizados em relação aos métodos, e, na urgência de mudar, experimentar, nem há tempo para corrigir manuais. E, no limite, para algumas pessoas, nem há motivo sequer para preferir certos conteúdos a outros, nem mesmo o facto de os primeiros serem cientificamente verdade e outros não (veja-se a propósito Um Discurso Sobre as Ciências de Boaventura Sousa Santos).
Cito (de memória) uma frase do filme
Les Invasions Barbares, dita por um professor doente, acamado, rodeado de amigos, quando é visitado por uns alunos: "Sim, são analfabetos, mas se lhes tivessem ensinado como deve ser, seriam tão inteligentes como nós."»


Vítor Brinches, do The River Run e do do Leitura Partilhada sugere uma área específica de estudos dos média:
«Aproveito esta discussão para relembrar alguns factos essenciais: a) a maior parte dos alunos do secundário passa mais horas por semana em frente do écrã (seja da televisão, da consola, do computador ou da internet) do que à frente do livro ou do professor; b) Qualquer aluno quando acaba o secundário tem mais slogans publicitários na cabeça do que versos da poesia portuguesa.
Por que não aproveitar esta ocasião para discutir a criação de uma disciplina obrigatória de análise dos media (ou mídia, como preferirem), de educação para os media (e por que não incluir também noções básicas de cidadania e de direitos do consumidor, por exemplo). Uma disciplina que preparasse os alunos para discutir, para agir, para pensar sobre os media que afinal são omnipresentes na sua formação. Uma disciplina em que se discutisse as técnicas de propaganda utilizadas pelos partidos políticos nas campanhas eleitorais, as manipulações da publicidade, do marketing, da televisão e, por que não, o regulamento do Big Brother.»


Também Pedro Cruz Gomes (do Planeta-Reboque) envia um mail com uma pergunta — que, no entanto, enfrenta a lógica da economia de mercado:

«Porque é que não é o Ministério da Educação a publicar UM manual para cada disciplina? Poupava-nos quase todas as aberrações que vêm sido citadas (sobrava só a estupidez oficial, mas isso é outra história...) e poupava outros dois pesadelos actuais: o preço e o peso dos livros (papel couché de muita gramagem para quê?).»

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 8. É importante que os professores falem abertamente sobre a questão levantada por este tema, como já disse. Acredito que, em determinadas circunstâncias (nada negligenciáveis, aliás), eles são um elo fraco nesta teia de irresponsabilidade, mediocridade e parvoíce. Muitas vezes submetidos à burocracia e às linguagens dos «técnicos» e «pedagogos» oficiais, acredito que o seu mundo ou fique irrespirável ou lhes dê uma grande, enorme vontade de rir. A questão dos manuais escolares, no entanto, é muito séria, prolongando erros e desvarios junto de crianças e professores. Veja-se o mail de M. Gaspar, que dá exemplos e levanta dois problemas interessantes:

«Sou professora de Língua Portuguesa do 10º ano.  […] De facto, é cada vez mais impossível, no que diz respeito a manuais, escolher o manual certo.  Só para dar um exemplo, recebi há dois dias um conjunto de fichas de trabalho, de Vera Saraiva Batista e  Verónica Baptista, Jogos Gramaticais, 3.º Ciclo Ensino Básico, publicado pela Lisboa Editora.  Quando me preparava para fotocopiar uma das actividades para os meus alunos, que tinha por objectivo sistematizar os pronomes, vejo o seguinte: “qualquer - quaisquere(s)”!  (página 16, exerc. nível 1).  É apenas um, entre milhares de exemplos. Pergunto eu:  qual o motivo que leva o Ministério a deixar proliferar tanta estupidez, tanta ignorância?  Por que motivo se culpam apenas os professores?  Por acaso já pensaram que os professores recebem, habitualmente em Junho, dezenas de manuais novos para escolherem um, no máximo até dia 15 de Julho?  Já pensaram que essa escolha coincide com a avaliação, com o serviço de exames, matrículas, etc?  Não é desculpa, mas dá que pensar.  Então, se no Ministério há tanta gente sem componente lectiva, se é nos seus gabinetes que se fazem os programas, porque não  fazem a análise pormenorizada dos manuais?  Assim, corriam-se menos riscos, em princípio. Depois, as escolas, no pouco tempo que lhes é dado, limitavam-se a escolher, de entre os manuais aprovados, aquele que tivesse mais a ver com os seus alunos. E, se tivesse de ser um manual único, como foi durante anos, não vejo qual o problema. O mesmo manual torna-se logo diferente consoante o seu utilizador e as estratégias de abordagem.»

Nesta matéria dos manuais escolares, bem como em outras áreas do ensino básico e secundário, não seria bom existir uma «entidade reguladora» que vigiasse erros como os que são apontados por M. Gaspar? Será aceitável que os autores e os editores de manuais escolares com erros grosseiros possam continuar a produzir disparates, como inimputáveis?

SAN ANGEL INN. Sim, eu gostava de regressar ao San Angel Inn, esse restaurante de Mexico DF. Mas, mais do que isso, gostava de cumprir essa promessa contigo. Há velhos carochas para seguir por estradas que levam ao fim do mundo, do Pacífico ao Atlântico, colibris, histórias, poeira, cervejas (Dos Equis, Carta Blanca, Leon Negro, Negra Modelo, Montejo), poemas, canções, rios, restaurantes para comer sopes e ouvir boleros de Agustín Lara, mapas que ensinam onde fica Oaxaca e onde se perdem as estradas para Campeche, lojas de Coyoacán, a penumbra da Sierra Madre, mariachis nas praças de cidades do sul. Depois de começar, não se acaba.

Outubro 13, 2003

PÉREZ-REVERTE. Depois de um livro destes (vai a meio) uma pessoa devia respirar outra vez, mas não sei se consegue. O A Rainha do Sul, de Arturo Pérez-Reverte (edição Asa, 440 págs.) é um romance que também não convém ler depressa porque é tão bom, tão bem escrito, tão «saboroso» (sim, cheio de sabores), que dá pena acabar um capítulo só para se continuar a ler a investigação fantástica de Reverte sobre Teresa Mendoza, a namorada de um operacional do narcotráfico mexicano, Güero Dávila (e, depois, de Santiago Fisterra, outro fabuloso contrabandista galego a operar entre Algeciras e Gibraltar). Teresa, la Mejicana, é uma personagem fantástica e a reconstituição que Reverte constrói na primeira pessoa (citando entrevistas com personagens reais em lugares reais — de ex-polícias e jornalistas, a escritores, como Manuel Rivas — e com documentos verdadeiros) é uma peregrinação policial superior. Esse mundo extraordinário que vai do San Angel Inn, em México DF (onde o director do diário La Reforma lhe propõe que escreva a sua investigação sobre Teresa — o San Angel é um restaurante que não se deve perder, come-se lá o melhor da gastronomia mexicana, já agora), passando por Sinaloa, Culiacán, por Melilla, Algeciras e Gibraltar, misturando a luz e a cor de Marrocos com personagens espanhóis (e irlandeses, e russos) que parecem relâmpagos numa noite de Verão, encontrou um narrador à altura. Construído no limite, transformando criminosos em actores fascinantes (Güero Dávila, Epifanio Vargas), revelando aqui e ali pormenores sobre o narcotráfico no consulado mexicano de Salinas, cheio de avionetas ilegais, de amores excessivos e de uma delicadeza surpreendente (pelo tema e pelas circunstâncias da própria biografia de Teresa Mendoza),A Rainha do Sul é uma revelação a conservar durante alguns dias em cima da mesa.

SITEMETER. O José Xavier, do Satyricon, comenta um texto anterior do Aviz em que se falava da minha resistência em colocar um «sitemeter» no blog. Ontem entrou aqui e deparou com um — procurou esse texto antigo (é sempre bom testar coerências), não o encontrou e pôs a hipótese de eu ter «cedido à tentação e eliminado esse “post”, para não lembrar as fraquezas do espírito...» Ora, o texto está ali, nos arquivos, sim senhor. E está mais, ali em baixo, um outro em que eu confesso que usei uma geringonça da Bravenet durante uns dias. Simples curiosidade, natural. O Sitemeter continuará por mais dois dias — para saber quantas visitas há, por exemplo. Sucumbi à curiosidade e à tentação. Na quarta-feira volta à normalidade: fico sem resistência depois de saber que alguém veio ler o Aviz digitando, no Google, «Benfica», «Hugh Grant» ou «Prof. Pardal». Vaidade, vaidade, tudo é vaidade. Ao pó voltaremos, como se diz nas circunstâncias.

O PAPA, A VELHICE E A ABDICAÇÃO. Vale a pena ler o texto «Apóstolos da gerontocracia?», publicado num dos meus blogs preferidos, o Memória Inventada (assinado pelo Tulius): «O culto da "juventude e da eficácia" é uma evidência que inquina a relação que temos com os mais velhos e com o nosso próprio futuro. Convém combatê-lo. Até aí estamos de acordo. Mas não me parece sensato concluir de imediato que a pública e progressiva decadência física do Papa é, afinal, a última lição de João Paulo II, ou seja, uma forma de nos lembrar que envelhecer faz parte da vida. Duvido sinceramente que seja esse o propósito do Papa ou daqueles que, de algum modo, o mantêm no lugar. O que parece ser indiscutível é que as suas limitações físicas são incompatíveis com as exigências e responsabilidades do cargo que ocupa.»
Ainda no Memória Inventada, há um pequeno texto do Ivan sobre Yom Kippur (entretanto, passámos Sukot, mas isso é outra coisa — lá voltaremos, caro Ivan).

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 7. A discussão sobre o assunto continua — seria bom, de qualquer modo, conhecer a opinião de professores. Entretanto, o Viva Espanha também comentou: «Mais concretamente, e no que se refere aos últimos exemplos conhecidos, trazer os saberes dos alunos para a sala de aula é uma pobre desculpa para o encobrimento da estupidificação de massas que determinados programas televisivos representam. Discutir o Big Brother e as telenovelas tem uma relevância inegável. As ilações que se podem tirar desses produtos televisivos dizem muito sobre a televisão que temos e sobre quem a vê. Mas promover o assunto a tema de estudo no ensino secundário à custa de tempo para explorar a Língua, as obras e os autores resulta de uma insensatez e de uma incúria indescritíveis.» O Homem-a- Dias deu um tom de ironia, atrevido: «Julgo que a reacção aos tais manuais do 10º ano tem sido excessiva. O regulamento do “Big Brother”, por exemplo, pareceu-me um texto conciso, correcto e razoavelmente perceptível. O que é muito mais do que se pode dizer de boa parte da literatura portuguesa contemporânea.» O Mata-Mouros também tem dedicado alguns textos ao assunto. O Klepsydra voltou a ele (o primeiro texto era de Nuno Mendes) — com uma nova e curiosa tese (acerca da inclusão de publicidade nos manuais escolares), exposta por Rui Curado Silva, e que termina com um fragmento dos Maniac Street Preachers: «If you tolerate this, then your children will be next.»

MUDANÇA. Depois de Martins da Cruz, parece que a política externa portuguesa poderá beneficiar com algumas alterações. O Notas Verbais (ver texto «Com o sinal “Manuela Franco”, mudará a posição portuguesa para o Médio Oriente?») sugere-o com clareza. É uma boa notícia — o A.G. também ainda não esqueceu os gestos de ternura de Martins da Cruz para com o Hamas.

Outubro 12, 2003

NOITE, O QUE É?, 15. Os nómadas estão sempre noutro lugar, falam das coisas da noite: respiração, páginas lidas, telefones, ruídos ocasionais — até chegar a insónia verdadeira. Nada interrompe esse delírio nem esses sonhos. Coisas fantásticas presas por um fio, recordadas todos os dias para que a vida tenha uma história para acontecer. De noite espera-se mais profundamente (mesmo que se ame a manhã, a luz perfeita do céu, a primeira luz do mundo). Passeios junto da água, idas ao supermercado, transplantar árvores, almoços tardios, recuperar o tempo. De noite espera-se mais profundamente.

PULSE. «This that recedes/ will come near to us/ on the other side of day.// Autumn: a single leaf/ eaten by light: and the green/ gaze of green upon us./ Where earth does not stop,/ we, too, will become this light,/ even as the light/ dies/ in the shape of a leaf.// Gaping eye/ in the hunger of day./ Where we have not been/ we will be. A tree/ will take root in us/ and rise in the light/ of our mouths.// The day will stand before us./ The day will follow us/ into the day.» {Paul Auster}

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 6. O Tempo Dual também escreve sobre o assunto.

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 5. Há, evidentemente, uma sensação de desânimo quando aparecem notícias como estas. O caso do manual de Português com o regulamento do Big Brother e anacronismos fatais já não nos devia incomodar? Devia, sim. E devíamos pedir esclarecimentos a quem aprovou esse manual. Devia fazer-se uma discussão sobre o assunto.
Entretanto, chamo a atenção para um blog que tem estado atento a casos semelhantes, o The Amazing Trout Blog: há uns meses tratou do manual escolar Estudo do Meio do João. Recordo o essencial, escrito então no Público e no Diário de Notícias e citado pelo The Amazing Trout Blog: «Os erros passam pela História, Política e Geografia. Portugal tem, de acordo com o manual, 22 distritos, ao invés dos 18 reais. O país já teve, de facto, 22 distritos, mas desapareceram em 1974. Este ano não é, aliás, feliz no Estudo do Meio do João, incluído no Estado Novo, período que se estende até à década de 80 e em que pouco se menciona o nome de Salazar. O período de ditadura é alvo de outra incorrecção quando se referem os órgãos de soberania da máquina do Estado Novo: o Presidente da República é substituído pelo chefe de Estado e a Assembleia Nacional pela Assembleia Geral. A nomenclatura não é, de facto, o forte dos autores do livro escolar, que garante que D. António (membro da segunda dinastia portuguesa) é filho de D. Luís e do cardeal D. Henrique. A Geografia contribui também para a catadupa de imprecisões, quando no manual são subtraídas quatro ilhas a Cabo Verde e São Tomé é presenteado com mais uma ilha.» No texto de ontem, o The Amazing Trout Blog indigna-se justamente. Só os parvos não se indignam com isto.
[Vejam-se, também, os protestos de A Sombra ou do Klepsidra.]

ESSA É A IDEIA. Depois do incidente com o blog da Rita, o Miguel Nogueira, do A Origem do Amor escreveu que teve um sonho: os textos do Abrupto e do Aviz tinham desaparecido e nem o Pacheco Pereira nem eu tínhamos cópia de segurança. Essa é a ideia, caro Miguel, essa é a ideia.

UM ESPECTÁCULO PORTUGUÊS, 4. Outro mail, o de U.T.:
«A mim não me comove a saída de Paulo Pedroso do EPL. A mim não me comove todo o espectáculo mediático sabiamente arquitectado. A mim não me comove a arrogância dos políticos que se julgam acima da lei. Enoja-me saber que o cidadão comum continua a ser um anónimo, um número de processo, sem direito a debate ou a qualquer tratamento sério por parte de quem de direito. Assusta-me tudo quanto se processa nos bastidores, longe das câmaras, perto, muito perto de interesses que, embora suspeitando, desconhecemos. Assustam-me essas sociedades secretas e obscuras, que ditam os destinos do País. Não tenhamos dúvidas, as ligações perigosas estão acima de partidos, credos e valores humanos. O Doutor Paulo Pedroso pode estar inocente ou não. Se um dia for ilibado, da forma que o processo está a ser conduzido, sinto-me no direito de pensar que os fortes podem sempre tudo, podem comprar e vender a dignidade humana.»

UM ESPECTÁCULO PORTUGUÊS, 3. Na sequência deste texto, Cecília Costa envia um mail em que deixa três perguntas:

«a) Acha mesmo que houve um espectáculo, no sentido de ter sido montado, na saída de Paulo Pedroso da prisão?; b) qual foi o verdadeiro papel dos media neste espectáculo?; c) na actual conjuntura, o que se esperaria dos ditos meios de comunicação social?
Gosto de o ler e não gostei da maneira como alinhou na cantilena de uns quantos recatados e "sóbrios" da nossa praça.»


Respostas concisas: a) sim; b) o de fazerem o que lhes estava destinado que fizessem; uns fizeram-no com mais sobriedade, outros com mais «sentido do espectáculo», outro com mais «sentido das conveniências», outros com uma certa falta de «sentido do ridículo», sobretudo nos comentários mais imediatos dos seus «repórteres no local» — preferia que houvesse mais sintaxe e menos adjectivos; c) a pergunta está armadilhada pela inclusão desse pormenor, «na actual conjuntura»; na verdade, esperava-se que os media fizessem o que fizeram — que dessem a informação e a explorassem (acompanhei o momento pela rádio, fazendo zapping); era dispensável o festim. A partir deste momento, o «caso Paulo Pedroso» está definitivamente encerrado na «esfera política» (mesmo que o dr. Sampaio reafirme que o seu discurso de Braga era «geral» e feito de «generalidades» e não dirigido ao juiz Rui Teixeira) — mas não acho ridículo que o deputado tivesse ido ao Parlamento; foi lá que deu a sua conferência de imprensa antes de ser interrogado e, depois, detido. O que se passou no espectáculo (misturando a «celebração política» em redor de Paulo Pedroso com os comentários sobre o Estado de Direito» e a natureza desta investigação) é outra coisa, como se verá nos próximos anos — se ainda tivermos memória para as coisas que se disseram nas últimas semanas e que vão ser ditas nas que se aproximam.

De resto, o «espectáculo» era inevitável. Compreendo perfeitamente o discurso próximo do País Relativo, por exemplo, que foi contido — e não vejo como poderia ser de outra maneira. Um resto de humanidade (e de amizade) marca as pessoas em momentos destes.

Cito, aliás, o que se escreveu com idêntico bom-senso na blogosfera, pelo Picuínhas: «Daí até sugerir que os dirigentes do PS se deveriam abster de receber com alegria e emoção um amigo libertado da prisão, vai um longo passo. É da natureza humana que se criem amigos junto daqueles com quem trabalhamos todos os dias. E um amigo não se abandona.»

ALFACINHA E VIRGINIA ASTLEY. Reparo, com atraso, que o Alfacinha (que entretanto mudou de alojamento, trocando o Blogger pelo Weblog.pt) deixou no seu blog um dos temas do From the Gardens..., da Virginia Astley, com dedicatória e tudo. Comovido, agradeço. E oiço.

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 4. Há, a esta hora, alguns textos na blogosfera sobre o assunto; Helder Ferreira também comenta, por mail, a «questão Big Brother»:

«Tenho um filho no 4º ano do ensino privado, a conselho de vários professores do Ensino Público. Em princípio seguirá a àrea artística, o que fará com que no 10.º ano esteja no Colégio Soares dos Reis, no Porto, especialmente vocacionada para esta àrea. A ser verdade o que vem escrito no seu post e sendo que o posso pagar, dentro de dois a três anos, irá estudar em Espanha. Recuso-me a permitir que seja quem for possa ser formado intelectualmente pelo regulamento do Big Brother. Fiz o ensino Secundário no Liceu Marquês de Pombal, numa àrea técnica e tive que estudar Gil Vicente, Descartes e Eça. No 11.º ano não li Os Maias, limitando-me a comprar e estudar os manuais que o explicavam. Nos dois anos seguintes, li a obra três vezes. Assusta-me que meu filho possa vir a ser mais um indigente. Por favor, a quem podemos apelar para que esta tristeza não vingue?»

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 3. O Adufe, no seu blog, conta uma história que, creio, não será única — mas que merece atenção:
«Conheço uma professora de português, com cerca de 30 anos de carreira que, perante os manuais à escolha (e particularmente perante o que a sua escola escolheu), resolveu assumir a responsabilidade de escrever o seu próprio manual. Entre textos próprios, peças completas dos autores do currículo — que não os excertos tristemente truncados que surgem em alguns manuais, por vezes nas partes mais nobres e instrutivas para o exemplo que visam destacar —, recortes, opiniões e outros contributos, escreveu e reescreve quase todos os anos um manual de português. Tudo é artesanal, tudo sai do corpo e das horas que poderiam ser destinadas à família, à leitura, ao lazer. Os seus leitores são exclusivamente os seus alunos e os bons resultados que vai conseguindo têm-lhe dado força para conquistar o direito a recusar os manuais adoptados. Tudo isto se passa numa escola pública da grande metrópole. Hoje, (só agora!), pouco depois do início do ano, a equipa de português percebeu que o manual que escolheu adoptar e recomendar aos alunos é particularmente mau. Que fazer? Pedir desculpas aos pais e pedir-lhes para comprarem outro menos mau? Deixar rolar porque ninguém está com atenção para o que se passa na escola? Temo que ninguém se lembre do exemplo da colega que ainda luta por valorizar o que faz e por respeitar os alunos que lhe cumpre educar.»

PORTUGUÊS SUAVE, 6. Continua, por vários lugares, a discussão sobre o Português Suave. Paulo Caldeira — que é médico — expressava há dias, no Aviz algumas dúvidas sobre o verdadeiro risco de doenças graves no fumador passivo. Entretanto, o meu vizinho médico que, felizmente, não prolongou por muito tempo a sua ausência do consultório escreveu no seu blog que estava «provado que o fumador passivo também é molestado pelo fumo do tabaco do parceiro do lado». O nosso bom doutor, é «apologista que os fumadores tenham os seus espaços isolados»; eu preferia dizer desta maneira: é bom que os fumadores tenham direito a um espaço de modo a não molestarem os não-fumadores. É essencialmente a mesma coisa, razão porque há entre mim e o Médico uma concordância em muitas coisas.
Convém, no entanto, dizer que a ideia de um «instinto agressor» do fumador faz parte da vulgata ecofascista muito em voga entre velhinhas evangelizadoras e psicopatas recém-chegados ao «clube dos saudáveis». Num dos romances mais divertidos de Manuel Vázquez Montalbán, Asessinato en Prado del Rey, Pepe Carvalho recusa-se a fumar o seu charuto porque pressente — e bem — que o charuto se apagaria de tristeza diante do ódio anti-tabagista do seu interlocutor.

Seja como for, Paulo Caldeira regressa ao Aviz para comentar o assunto, contrariando o nosso doutor, e afirmando que não concorda que «ficou provado» que o não-fumador é contagiado fatalmente pelo fumador:

«Apenas observo que, baseado em observações epidemiológias falíveis, se generalizou a ideia que o fumador passivo tem um grave risco de doença, especialmente o cancro do pulmão. E porque é que não concordo?
Em primeiro lugar, e como já disse, a entidade de fumador passivo é algo difícil de definir. Pego num artigo científico português, de onde retiro este excerto, que bem o exemplifica: os estudos deste tipo, para avaliação do risco do tabagismo passivo, podem estar sujeitos a vários tipos de limitações epidemiológicas, que de alguma maneira poderão falsear a determinação do risco do cancro do pulmão. Passamos a analisar algumas descritas por Eriksen e colaboradores:
a) erro de classificação > tratam-se dos problemas ligados ao diagnóstico de cancro do pulmão, e ao «status» de não-fumador. No que se refere ao primeiro, no nosso trabalho todos os casos foram histologicamente confirmados, não sendo de excluir no grupo com adenocarcinomas algumas neoplasias secundárias; contudo num estudo conduzido por Garfinkel, ao excluir todos os adenocarcinomas, persitiu o efeito positivo do tabagismo passivo.A possibilidade de incluir fumadores ou ex-fumadores que se declaram não-fumadores, poderá falsamente elevar o risco do ETS, contudo dados recentes mostram excelente concordância entre os marcadores biológicos de exposição e afirmação da condição de não-fumador.
b) questionários > desde sempre se têm levantado dúvidas da capacidade descriminatória da informação obtida. Os estudos de Coultas e Brownson demonstram, contudo, a fiabilidade da história da exposição ao ETS através de questionários estruturados e com entrevistas estandardizadas.
c) «confounders» > a existência de outros factores de risco como a dieta e a exposição ocupacional, ou a interferência do nível social e educacional devem ser tomados em conta, pois podem ter um efeito de «counfonder» em relação à exposição ao tabagismo passivo. Embora estes aspectos não tenham sido abordados no nosso trabalho, os hábitos dietéticos, a história ocupacional e o nível educacional vão ser analisados no âmbito do estudo multicêntrico.
Este trabalho português está integrado no estudo europeu sobre risco do carcinoma do pulmão em fumadores passivos, conduzido por Paolo Boffetta . Faço notar duas coisas a propósito deste estudo. «Não fumador» é definido como consumo inferior a 400 cigarros/vida e, aparentemente, não fizeram nenhum teste biológico para confirmar essa condição. Concluem que o risco relativo da Ca pulmão do fumador passivo (só para cônjuge e trabalho) é de 1.15, o que não é nada de especial (embora significativo). No entanto em 3 centros esse risco foi inferior a 1 (efeito protector) e em 2 foi de 1 (efeito nulo). Não foram avaliadas outras potenciais exposições.
Outra razão: referi também que o risco de carcinoma do pulmão, no fumador e não fumador, tem muito a ver com factores genéticos. Coloco aqui só um abstract do Boffetta sobre o tema. Então porquê esta enorme campanha?
Tem a ver com muitas coisas. É claro que o fumar tem riscos importantes para a saúde, tornou-se socialmente correcto não fumar, é uma campanha atractiva para os média, é mais fácil fazer os fumadores parar de fumar se atrair sobre eles a ira dos não fumadores. Esta campanha vem da América, país de democratas e fundamentalistas. Assim como as tabaqueiras manipualm dados a seu favor, instituições públicas também o podem fazer. Só um exemplo de "manipulação" de dados que passa facilmente para os média: o tabaco causa cerca de 440.000 de mortes/ano nos EUA, causando cerca 5 milhões de anos de vida perdidos e cerca de 8,6 milhões de pessoas têm doenças atribuídas ao fumo do tabaco. Estes números de milhões são impressionantes.
Ora se virmos a tabela ressaltam duas coisas. As definições: fumador é definido (em contradição com o acima definido) como ter fumado mais de 100 cigarros/vida e manter hábitos alguns ou todos os dias, ex-fumador é ter fumado mais de 100 cigarros na vida e não manter hábitos actuais, não fumador como ter fumado menos de 100 cigarros/vida. As doenças: estão incuídas, nas doenças relacionadas com o tabaco, o AVC e o enfarte do miocárdio. Desta maneira (quase) todos nós somos fumadores ou ex-fumadores.
Desta maneira um velhinho de 70 anos, cheio de diabetes, colesterol e que fuma 1 ou 2 cigarros por semana, ao ter um banal AVC passa a constituir morbilidade associada ao tabaco, e se morre, uma morte atribuível ao tabaco.
Já chega. Não tenho nenhum interesse na indústria tabaqueira, não defendo o hábito de fumar. Apenas condeno campanhas acéfalas baseados em dados científicos pouco seguros. Qualquer médico sabe que, epidemiologicamente pode-se "provar" tudo, até que homens de bigode farfalhudo têm mais calos nos pés!»


Eu também concordo com o Paulo Caldeira, porque me convém, evidentemente. Mas o que me assusta, realmente, é acabarem com o «Suave» do «Português Suave». Isso é um golpe e tanto.

Outubro 11, 2003

UMA ONDA DE PARVOÍCE, 2. A linguagem dos técnicos do Ministério da Educação é, na maior parte das vezes, incompreensível: esquece o seu destinatário, esquece os problemas. Se nos últimos anos do sistema de ensino em Portugal pudemos assistir a alguma experiências pedagógicas «interessantes» — ou seja, cativantes na sua «forma» — isso deve-se mais ao empenhamento de professores, isoladamente, do que às estruturas da própria instituição. Mas isso não retira nada ao clima de barbárie científica vivido no «secundário», em matérias como o ensino da língua e da literatura, bem como na escolha dos autores representativos da nossa literatura. Tem-se esquecido o estudo da nossa história, dos clássicos portugueses, da literatura. Em favor de quê? De uma preocupação (e isto não implica o menosprezo do ensino vocacionado para as «saídas profissionais», como se verá) pela actualidade, pela contemporaneidade, pelos «cortes temporais» que representam passos essenciais da história portuguesa através de esquemas simplificados e anedóticos (como se a história não fosse uma narrativa), e em nome de um desprezo curioso pela erudição, pela passagem do tempo e pelo «esforço de aprender» — tudo substituído por textos seleccionados pelos alunos de revistas de televisão ou, acrescento eu, para «análises» nas aulas. Passear pelas propostas de «análise textual» de alguns manuais escolares de Português poderá ser uma boa oportunidade para rir, caso não se trate de matéria séria demais. É tal a quantidade de asneiras, de leviandades apresentadas como «certezas científicas», de expressões defeituosas em termos gramaticais, de esquemas que de tão simplificadores deixam de se poder entender — que bem poderíamos manifestar mais compreensão pelos adolescentes que vagueiam pelos corredores das escolas secundárias.
Sendo verdade que a escola está mais aberta ao mundo exterior, que recebe mais visitas de escritores, de historiadores, de políticos, de gente viva, não se pode ignorar que a essa actividade não corresponde o esforço posterior (ou anterior) de aprofundar as matérias tratadas nesses encontros. Por um lado, a leviandade tomou conta de grande parte do ensino do Português e da História; por outro lado, o tratamento de «assuntos elevados» (presentes nos textos trabalhados em algumas aulas) não é acompanhado pela insistência em algumas coisas básicas: o valor a conferir ao conhecimento, à aprendizagem, à investigação, à leitura. A referência, omnipresente em todos os programas de ensino, à ideia de «problemática», esquece que só se pode «problematizar» aquilo que antes se estudou realmente. Há uns anos, um cavalheiro da APEL (uma agremiação de editores & livreiros), manifestou-se contra a existência de «livros pesados». Acredito. Depois de ver os que existem, ficamos entendidos. E tem razão, o senhor: quantos alunos leram, de facto, Os Maias (tirando o caso dos de uma professora de português de Mirandela que, conforme se noticiou na altura, «se tinha esquecido do Eça», e não o mencionou nas aulas)? Tão pesado, tanta maçada. E Cesário? E Vieira? Tão pesado. E para quê ler Os Maias, se há livros que o explicam «como deve ser», e com as munições da gerigonça universitária? E para quê interrogar-se sobre a própria ideia de «que literatura escolher», se os exemplos a colher vêm nos livrinhos divulgados em vulgata ou só em anos recentes? Para quê tomar a literatura portuguesa como corpus de serviço para o ensino do Português, se os mestres de linguística da antiga escola estrutural advogam o privilégio da «língua oral» sobre a matéria escrita?
Mas se estes são problemas concretos na área das humanidades, existe por detrás um monstro a permitir a sua existência: as vulgatas de Ciências da Educação — de que os alunos dos CIFOP conheciam a existência, as alíneas, os versículos, a demonologia, a metafísica e sobretudo o novo-riquismo. Por detrás das Ciências da Educação, e da pragmática erigida em teologia autoritária, transformadas em detentoras de todo o conhecimento sobre a actividade pedagógica e sobre a arte de ensinar, existe, claramente, um outro monstro: a tecnocracia, aplicadíssima, pesarosa e grave — aduladora do relativismo cultural e de tudo quanto retire humanidade às humanidades, inconsciente e irresponsável no seu anonimato de «comissão de serviço no Ministério» ou semelhantes postos. Mas quase sempre no anonimato, num universo sem rosto e muito satisfeita consigo própria.
Por todos estes motivos, o debate sobre os «curricula» e o sistema educativo não diz respeito apenas aos técnicos do Ministério da Educação. A prova está à vista neste manual que propõe aos alunos que estudem o regulamento do Big Brother e que ilustra Camões com Renoir (as autoras dizem que o contexto histórico-cultural não é importante).

UMA ONDA DE PARVOÍCE. Tal como o Nuno Mendes alertou no seu blog, o Klepsydra — para quem ainda não tenha lido um texto do Público — uma onda de parvoíce continua a banalizar e desvalorizar o ensino do Português nas escolas. Cito, para terem a certeza: «No manual “Comunicar” de Língua Portuguesa do 10.º ano, da Porto Editora, no capítulo dedicado a textos pragmáticos, é apresentado o regulamento do concurso televisivo Big Brother. Ao lado estão fotografias de ex-concorrentes, sós ou a dar autógrafos. Aos alunos é proposto que, "em diálogo com os colegas da turma", refiram o que "já conhecem sobre este concurso" e que, após a leitura do regulamento, emitam "um parecer sobre o mesmo".» Só isto bastaria para sorrirmos — caso não apetecesse desejar que a onda de parvoíce alastre para provarmos que Portugal merece isto.
Maria do Carmo Vieira, professora de Português na Escola Secundária Marquês de Pombal, de Lisboa, fez uma análise dos vários manuais disponíveis para adopção no 10º ano à disciplina de Português B — e descobriu esta pérola. O Público explica: no dossier «Textos dos Média», são reproduzidas grelhas televisivas e um passatempo da TV Guia, a que se dá o nome de «Testenovela». Maria do Carmo Vieira bem se queixa, e com toda a razão, quando diz que parece estar a vingar a ideia de que «o correcto é respeitar o discurso que os alunos trazem para a escola. Assim surgem os Big Brother, as entrevistas com Herman José (manuais da Areal e Constância), as programações divulgadas pela TV Guia». Mas o mais escandaloso é a resposta do presidente da Associação de Professores de Português, Paulo Feytor Pinto, quando lhe perguntaram a opinião sobre a presença do regulamento de um concurso televisivo da TV Guia: «O regulamento está lá só para entreter ou não? Se, por exemplo, é apresentado para se chegar a algo de maior — como o regulamento da nação, a Constituição da República Portuguesa —, então se calhar não tenho objecções.» Excelente: do Big Brother à Constituição da República. Do Canal 18 ao dr. Feytor Pinto.
As autoras do manual, por seu lado, defendem-se: «O que é pedido ao aluno não é que discuta o concurso na aula, mas que analise um modelo textual específico [o regulamento do Big Brother], tarefa que, na nossa opinião, seria bastante dificultada se este tivesse que se pronunciar sobre o regulamento de um concurso que, eventualmente, desconhecesse. O que se sugere (de acordo com o novo programa da disciplina) é uma análise da componente linguística do texto a partir da mobilização de conhecimentos anteriores que, neste contexto, podem revelar-se úteis à análise em causa [o regulamento do Big Brother], garantindo algum grau de eficácia ao objectivo de escuta.»
Esta onda de parvoíce devia ser corrida das escolas. É demasiado cruel para ser verdadeira. É Portugal no seu melhor, com o ensino entregue à rapaziada, valorizando a imbecilidade, o banal, o vulgar — em detrimento do conhecimento, do rigor e da cultura, destinando as aulas de Português à discussão do regulamento do Big Brother — já que lhe retiraram Vergílio Ferreira e Gil Vicente, por exemplo. Teresa Guilherme sempre é melhor; está ao nível.

POESIA. Há, aí, um interessantíssimo debate sobre poesia. Recomendo que o sigam, a avaliar pelo que vem na Periférica, centrado na antologia Poetas Sem Qualidades, organizada por Manuel de Freitas. Escreve R.A.A. no blog da Periférica: «Mas então vamos lá ver: opto pelo transcendental e limo as arestas como V. Ex.as preferem, ou fico à espera até novas ordens?» Este assunto já tinha sido abordado pelo Luís Januário no A Natureza do Mal (recomendo idêntica visita). Eu acho — sinceramente — que a literatura, assim, vale a pena. Um confronto por mês, pelo menos, dá alegria.

EXCESSO. Sim, é excessivo publicar estes dez textos — mas não é uma leitura de Ulysses, longe disso. São notas avulsas, retiradas ao acaso. É também uma homenagem ao Leitura Partilhada, que propôs o livro aos seus frequentadores.

NOTAS SOBRE ULYSSES, 10. Inclusive o seu encontro com Yeats não foi nada feliz: W.B. não gostou dele, não achou graça ao rapaz arrogante, convencido do seu génio e da sua grande e eloquente escrita. Mais tarde, Joyce pede dinheiro a Yeats. Este responde-lhe: «Dear Joyce, I am very sorry I cannot help you with money. I did my best to get you work as you know, but that is all I can do for you.» O amigo de Yeats, George Russell, o poeta Æ, convida-o a escrever para o The Irish Homestead, mas os textos de Joyce não o convencem; escreve-lhe Yeats (a carta seria, pelos padrões de hoje, considerada insultuosa...): «Dear Joyce, could you write something simple, livemaking, pathos?, which could be inserted so as not to shock the readers...» O exílio de Joyce foi também contra Yeats, o mundo literário de Dublin, o catolicismo, o protestantismo, o ruralismo e o folclorismo que tinha invadido a literatura irlandesa. Quando regressa à cidade — ocasionalmente —, esta deprime-o, violenta-o, entristece-o. Dublin não é, definitivamente, a cidade de Joyce.

Mas Joyce confessou muito mais tarde, depois de Dubliners, de Finnegans Wake e de Ulysses: «I have reproduced none of the atractions of the city. I have not reproduced its ingenuous insularity and its hospitality. I have not been just to its beauty.»

NOTAS SOBRE ULYSSES, 9. Joyce foi severo com Dublin: o seu envolvimento com a cidade, diz William Trevor, foi muito diferente daquele que Yeats teve com a sua Sligo, ou que Synge, o autor de The Playbouy of the Western World (estreado no Abbey Theatre, animado por Yeats) ou The Aran Islands, teve com Wicklow ou as ilhas. Não foi nunca uma paixão: tratou-se de uma aproximação «in a dry, cold, almost clinical way». Os seus roteiros de Dublin não são, como os de Sean O’Casey, Yeats, Russell, Shaw ou até Synge e Behan, caminhos comuns a uma geração, a um grupo de escritores — são viagens solitárias como as de Stephen Dedalus. Solidão no meio da pobreza, da miséria, das ruas cinzentas, sujas, frias e húmidas. Solidão no meio da própria solidão, de onde se escapa, furtiva e perversa, a imagem de Nora Barnacle, em Ringsend Park, no Verão de 1904. A imagem feliz de Dublin, em Joyce, é a que vem em certas páginas de Dubliners, cheia de recordações de infância, vozes do passado; Ulysses, escrevia William Trevor, é uma espécie de projecto arquitectónico — o mapa ideal de uma cidade pronta a reconstruir-se de acordo com as deambulações dos personagens, ou seja, uma imagem literária. Construída de acordo com um filtro de frieza e de isolamento.

NOTAS SOBRE ULYSSES, 8. A meio da Grafton Street, fica Duke Street e um bar, o Davy Byrnes, onde Joyce costumava descontar vales na caixa, cheques que toda a gente sabia que nunca iriam ser pagos ao dono do pub. Em frente, outro pub, o Bailey’s, que guarda as suas tradições literárias, sessões de leitura, círculos de conversadores e bebedores, sábados de tarde para discutir futebol e râguebi. Mais abaixo, na direcção do Trinity College (e, é verdade, da Books Upstairs, uma livraria — tão boa quanto pequena), o The Palace. E, na primeira das pontes sobre o Liffey, de onde já se avista a Custom House (onde, justamente, Dedalus e Bloom conversam por volta das duas da manhã), lá está, no chão, uma placa, adiantando, naquele local, a passagem dos personagens de Ulysses. Imagine-se o que aconteceria se a câmara de Lisboa escrevesse no chão, como está escrito no chão de Dublin em relação aos seus escritores: «Aqui pôs o pé o senhor Carlos da Maia, personagem de Eça de Queirós.» Ou a câmara do Porto: «Desta janela o senhor Edmundo Barrosas, personagem de Camilo Castelo Branco, apaixonou-se em Os Brilhantes do Brasileiro». Por aí adiante.

NOTAS SOBRE ULYSSES, 7. Molly Bloom. E Molly Malone, a da canção dos The Dubliners («in Dublin’s faer city / where the girls are so pretty / I first sat my eyes on sweet Molly Malone») também, porque se confunde com a imagem dessa mulher mitológica que ninguém conhece ao certo mas que marca os poemas das canções de bandas populares ou que, escritas por gente como Patrick Kavannagh (como «On Laglan Road», sobre a melodia «The Dawning of The Day», para a música de Van Morrison: «On Laglan Road on an autumn day I met her first and knew/ That her dark hair would weave a snare that I might onde day rue;/ I saw the danger, yet I walked along the enchanted way,[…] O I loved too much and by such is happiness thrown away.») circulam por várias vozes. Veja-se esse livro magnífico que é Confessions of an Irish Rebel, de Brendan Behan, cheio de canções (lembro-me agora da belíssima «The Auld Triangle», cantada por Ronnie Drew: «A hungry feeling/ Came o’er me stealing/ And the mice wre squealing in my prison cell,/ And that old triangle/ Went jingle jangle,/ Along the banks of the Royal Canal.// To begin the morning/ The warder bawling/ ‘Get out of bed and clean up your cell’,/ And that old triangle/ Went jingle jangle,/ Along the banks of the Royal Canal»).

NOTAS SOBRE ULYSSES, 6. Imaginemo-nos na Sandycove Martello Tower, nome que agora ninguém reconhece, porque esta construção apontada à baía, mesmo defronte para Dun Laoghaire, leva a designação de Joyce Tower: ouvem-se ainda as palavras de Buck Mulligan, no início do livro: «Introibo ad altare Dei!», dizia ele para Stephen Dedalus, a quem tratava de «jesuíta cobarde». Às oito horas começava a grande peregrinação do Dedalus de Ulysses: às dez da manhã, o cenário é o da Dalkey Avenue e, depois, o de Sandymount Strand. Bloom começa em Eccles Street, número 7, às mesmíssimas oito da manhã. Terminarão os dois nessa mesma casa, às duas da madrugada. É impossível fazer o trajecto de seguida, passando por Leinster Street, por Prince’s Street (onde ficaria o Freeman’s Journal) e Middle Abbey Street (onde era o The Evening Telegraph), e, depois, por O’Connell, pela National Library, pela Strand, pela Grafton, diante do Trinity College mais tarde, Merchant’s Arch, Bachelor’s Walk, diante do Liffey (para os que gostam de Dublin, o cenário é o de certas canções dos Pogues), brilhando como pode brilhar a água do rio sob o céu cinzento de Dublin, James’s Street (para beber uma Guinness, claro), Fleet Street, Upper Ormond Quay, mais ao sul, Dublin Castle, Wicklow Street, Phoenix Park, Wellington Quay, Ballsbridge, Sandymount, até chegar a Holles Hospital Street, onde se dá o encontro mágico entre Dedalus e Bloom, e depois beber com ambos por volta de Beaver Street, sentar-me nos degraus da Custom House, caminhar, finalmente, entre Beresford Place e 7 Eccles Street, e ouvir a voz de Molly e julgar que ela é Nora, Nora Joyce, e não Molly, Molly Bloom. «[...]e Gibraltar como uma rapariga onde eu era uma Flor das montanhas sim quando pus a rosa nos meus cabelos como usavam as raparigas andalusas ou talvez eu devesse pôr uma vermelha sim e como ele me beijou debaixo da muralha mourisca e eu pensei tanto faz ele como outro e depois pedi-lhe com os olhos para pedir outra vez sim {and Gibraltar as a girl where I was a Flower of the mountain yes when I put the rose in my hair like the Andalusian girls used or shall I wear a red yes and how he kissed me under the Moorish wall and I tought well as well him as another and then I asked him with my eyes to ask again yes»} (uso a tradução de João Palma Ferreira, ligeiramente preferível à de Houaiss).

NOTAS SOBRE ULYSSES, 5. Estamos em Dublin, no verão de 1904, 16 de Junho, em Merrion Square. Vão os dois (Joyce e a então Nora Barnacle) para longe do centro da cidade, para a zona do porto, perto de Dun Laoghaire, Ringsend. Ellmann diz que ambos se tocaram nessa noite. Brenda Maddox é mais crua: «To Joyce’s greatful astonishment, she unbuttoned his trousers, slipped in her hand, pushed his shirt aside and, acting with some skill (according to his later account), made him a man.» Digamos que Joyce não estava preparado. Maddox esclarece, jovial: James pensou que uma rapariga não faria isso se, antes, não tivesse já uma larga experiência na matéria. Mais tarde, numa carta de 1909, Joyce pergunta a Nora se ela «felt a man’s or a boy’s prick in your fingers until you unbuttoned me?» Pobre Jimmy. Ringsend não era, propriamente, um lugar de conversas sobre literatura, embora não fosse a Nassau Street de então, onde as prostitutas faziam o seu negócio. E Nora não era, também, uma rapariga inocente — atrás de si vinha uma história curiosa, a de, em Galway (onde nascera e de onde chegara há pouco tempo), ter vivido (sem ser casada) com um homem a quem era atribuída a autoria de um livro pornográfico, sem falar das necessidades de dinheiro. Mas Joyce também era um artista nessa matéria: sabia como viver à custa dos outros, e, se Nora pensava em obter dele algum dinheiro, estava redondamente enganada. Brenda Maddox lança uma pilhéria: era mais plausível que fosse ele a pedir-lhe dinheiro.
Mas o tempo passou, como passa invariavelmente, e estes episódios ficam esquecidos ou, pelo menos, vão perdendo a importância que poderiam ter quando Joyce e Nora se encontravam nesse Verão de 1904, ou quando trocavam cartas rápidas, breves, cheias de pecado e de convites para outros e novos encontros. Stephen Dedalus falará disso em Ulysses, quando passeia para lá de Ringsend Park e sente o cascalho sob os pés: «Toca-me. Suaves Olhos. Suave, suave mão. Sinto-me tão só, aqui. Oh, toca-me depressa, agora. Que palavra é essa que todos os homens conhecem? Eu aqui estou sozinho, quieto. E triste, também. Toca-me, toca-me.» O que é certo é que a fama de Nora como mulher iletrada (tinha apenas a grammar school) e indiferente aos livros de Joyce, faz parte, apenas, da lenda literária do seu marido. Na vida de Joyce, ela será sempre mais poderosa do que se julga.

NOTAS SOBRE ULYSSES, 4. Brenda Maddox, que escreveu uma biografia de Nora, dá o exemplo de «The Dead», onde Gretta Conroy, que seria inspirada na mulher de Joyce, é descrita como um corpo «estranho, musical e perfumado», que teria de o compensar por tê-lo feito sofrer tanto, «for having inspired the jealousy still burning in his heart». Ele próprio escreveria, numa carta a Nora, datada de 22 de Agosto de 1905: «Your love for me must be fierce and violent to make me forget utterly.» É curioso ver como os ciúmes (injustificados?) de Joyce acabam por ter uma correspondência no caso Leopold Bloom/Molly Bloom. Esta engana-o com vários homens, mas nem por isso a sua imagem, no livro, é censurável em quaisquer termos — Molly é, no final do monólogo, uma mulher surpreendentemente bela, cativante, talvez a mulher por quem Dedalus se poderia apaixonar. Mas, no caso James/Nora é preciso recuar até ao seu primeiro encontro.

NOTAS SOBRE ULYSSES, 3. Molly Bloom. O caso é, aparentemente, mais grave ou, pelo menos, mais difícil de esclarecer nestes termos de «isto lembrou-lhe aquilo». Comecemos por Nora Barnacle, depois — e definitivamente — Nora Joyce: Richard Ellmann diz que Nora era anti-intelectual. Que importância tem isso? Parece que James Joyce a amou durante toda a vida («I would go anywhere in the world if I could be alone with your dear self without family and without friends», vem nas Letters) — Joyce dividiu o seu amor familiar entre Nora e os filhos de uma forma estranha. Lucia foi a sua preocupação de sempre (é engraçado como os biógrafos atribuem a Nora a crescente loucura de Lucia). Mas vejamos as fotografias, sobretudo as de Berenice Abott — uma fotógrafa que trabalhou com Man Ray: a compostura de Nora é determinada pelo olhar, é a única (entre as que Berenice fez de Nora, Lucia e James) que olha para a objectiva (vejam-se os retratos de Tullio Silvestri, de Trieste, o de Frank Budgen, em Zurique, ou o de Myron Nutting, em Paris); Lucia, fotografada de perfil, em plano americano, é belíssima, e olha em frente — portanto, não para a objectiva, que está à sua esquerda, mas para a frente, sentada com uma mão no regaço e a outra assente sobre o braço da cadeira; Joyce, James Joyce, de camisa às riscas e de fato claro, com um laço apropriado, apoia-se sobre o cotovelo, nas costas do sofá, levando a mão à testa. Aparentemente, tudo leva a crer, são completamente diferentes um do outro: James introvertido, ausente — Nora, decidida, pouco dada a melancolias. Joyce dizia dela, numa carta a Stanislaus: «Adorably ignorant.» Mas isso não o assustava muito — assustava-o mais a enumeração dos antigos namorados de Nora, por exemplo.

NOTAS SOBRE ULYSSES, 2. Leopold era o primeiro nome do pai da signorina Popper, de Trieste; Bloom era um bom nome irlandês, é certo, mas, mais do que isso, era o nome de um personagem curioso — um dentista protestante que se converteu ao catolicismo para poder casar com uma católica de quem viria a ter cinco filhos. Um deles chamar-se-ia Joseph. Joseph Bloom. Quando, no Ulysses, se listam as moradas de Leopold Bloom, uma das indicadas é 38 Lombard Street; nada mais, nada menos do que a morada verdadeira do Joseph Bloom verdadeiro, o filho do dentista, que foi seu amigo de infância, e que depois viria, também, a ser dentista. O outro Bloom que Joyce conhecera, conta Richard Ellmann na sua monumental biografia, era um rapaz de Wexford, no sudeste da Irlanda, condenado em 1910 pelo assassínio de uma rapariga com quem trabalhava num laboratório de fotografia. Ele matou-a e, de acordo com o plano, devia suicidar-se de seguida a ter escrito na parede a palavra love com o seu próprio sangue; não sabia escrever, e grafou liove — mas não se suicidou; foi internado num asilo de loucos. A filha de Bloom, no romance, chamava-se Milly e era aprendiza num laboratório de fotografia.

NOTAS SOBRE ULYSSES, 1. William Trevor falava de Ulysses?: «There must have been a begining. There must have been someone who arrived long, long before Giraldus, who walked along Irish shores and visited the places of his wonders. A woman it was, he suggests, who may first of all have lingered by the stream wich boasted with golden teeth, who rested in the beeless meadows: none other than the grand-daughter of Noah.»

ULYSSES. O Leitura Partilhada é um dos blogs fundamentais. Depois de ter proposto a leitura de Os Papéis de K., de Manuel António Pina (edição Assírio & Alvim), está agora a folhear o Ulysses de Joyce. E citam, a propósito de Leopold Bloom: « Se subitamente todos nós fôssemos outras pessoas quaisquer.» Esse é um dos segredos de Ulysses.

O QUE MATA. Esta discussão é risível e menor, eu sei. Fumar, não fumar. Tudo isso. O nosso bom doutor, ex-fumador, escreveu sobre o assunto, compreensivo, habituado a lidar com os vícios do género humano. O pormenor irritante é o pendor higienista que a campanha anti-tabaco tem desde o princípio: um mundo de leite magro, iogurte líquido, sumo light, «jovens que fazem surf mas não fumam», ovos sem colesterol. De vez em quando há uma antevisão desse mundo e não compreendo como os letreiros que hoje dizem «o tabaco mata» (com aquela agressividade boçal, palerma, primária e feia) não estão a tapar dois terços das garrafas de vinho («o álcool mata»), de whisky, de cerveja. Ou junto nas portas dos automóveis («morre-se nas estradas»), nas vitrines dos talhos («o consumo de carne vermelha é prejudicial à saúde»), nos livros de Paulo Coelho (não descobri a frase), tapando dois terços do «Jornal Nacional» da TVI, da fuselagem dos aviões, da frontaria do Ministério das Finanças, do nosso corpo todo. Não sei. Estamos tão sujeitos a tudo.

Outubro 10, 2003

NOITE, O QUE É?, 14. Uma voz. Um sopro. A chuva que caiu durante a noite sem ser escutada. Passar um tempo esperando outro. O sabor do café, recordas o sabor do tempo, da voz. Como se estivesse aqui. Nesta altura chegam as perguntas, entram pela janela, uma perturbação sem nome, coisas vadias.

OS PORTUGUESES ACHAM QUE. [O PAPA] Este debate já vai longo, mas penso que toca em alguns aspectos que ultrapassam, de longe, o pormenor do «abdica» vs. «não abdica», como, por exemplo, a capacidade de enfrentar o sofrimento e a velhice, a legitimidade para não-católicos comentarem o assunto, etc. Neste caso, o Nuno P. do Janela para o Rio lembra-me, por mail, um texto publicado no seu blog sobre esta matéria.

«O que me aflige na discussão sobre a renúncia não é a discussão em si, é ver como as pessoas têm dificuldade em lidar com a velhice ou com a doença. João Paulo II tem mantido um discurso coerente com todo o seu percurso, a única coisa que mudou foi o seu aspecto, claramente afectado pela doença de que padece e pela idade que não perdoa.
O culto da juventude e o desprezo aos idosos é uma das grandes características das modernas sociedades de consumo […] ao mesmo tempo que os nossos avós e pais são colocados em lares ou pura e simplesmente esquecidos (veja-se a recente situação com os mortos de calor em França, em que muitos dos corpos de idosos não foram reclamados pelas famílias, provavelmente de férias numa qualquer estância balnear). Acho que existe um horror ao envelhecimento, pelo que acho que o facto de João Paulo II se manter no activo, provavelmente à custa da sua própria saúde, é uma enorme ajuda que presta ao combate a esse trauma, demonstrando que a doença e a idade não implicam que a pessoa deixe de ser útil, antes pelo contrário. É por isto que me apraz ver Karol Wojtyla envelhecer enquanto Papa e, quando assim tiver que ser, morrer enquanto Papa.»

ASSALTO A BANCOS. O assunto já é velho de dias, mas quando passo pela rua e vejo a rapaziada vestida de capa e batina, como se fossem beber cerveja no meio de uma tuna, agarrados a uma guitarra, pressinto que não se trata de estudantes. A imagem é vulgar, peço desculpa — mas não há como tirá-la da cabeça. Esse espectáculo das praxes, das bençãos das fitas e das respectivas fitinhas coloridas nunca me comoveu. Mas, agora, esta ligação na minha memória entre as bênçãos das fitinhas e a contestação estudantil, ultrapassa o que se possa pensar sobre surrealismo. Em Coimbra, o porta-voz da «academia» justifica a interrupção da reunião do Senado — trata-se de «desobediência civil», e dá mostras da sua alegria. Os repórteres rejubilam, a luta continua. No Porto, outro porta-voz da «academia» decreta uma «situação de crise» cujas consequências podem ir até à «desobediência civil». Os repórteres voltam a rejubilar, a luta continua. Eu compreendo a ideia de uma «luta contínua», «sem quartel», mas esta mistura de lugares-comuns com capas & batinas, de papel higiénico (a imagem do Abrupto é essencialmente correcta) com banalidades, é um folclore que às vezes parece imbecil. E vejo, ao fundo, os estudantes do Técnico (de Lisboa) que mandam os «caloiros» simular um assalto a um banco como «rito de passagem», mistura de criminalidade com mais imbecilidade. E tudo se mistura, como de costume.
P.S. - Através de uma carta inacreditável (publicada na Grande Reportagem), um responsável do Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros avisou-me há tempos que pretendia que eu esclarecesse «em sede própria» as minhas opiniões sobre as praxes e a vergonha que aconteceu naquela escola (o gabinete jurídico «accionaria as medidas tidas por convenientes», eu não perderia pela demora). Eu tinha defendido, com naturalidade, que o ministério da Ciência devia — caso se verificassem barbaridades semelhantes às que ocorreram no ano passado — fechar o Instituto. Hoje acho que se deveria fechar uma boa parte desse país.

UM ESPECTÁCULO PORTUGUÊS, 2. O chamado escândalo da pedofilia despertou algumas intuições sobre o funcionamento real do país – não sobre o país da Expo, o país do Euro 2004, o país festivo, o país das boas estatísticas. Nem sequer sobre o país das más estatísticas, porque há coisas que não cabem em números. Basta ter visto a reacção corporativa dos portugueses diante das suspeitas lançadas sobre os seus heróis ou os heróis dos vizinhos: o país desfaz-se rapidamente em jantares de solidariedade, em indignações, em elogios de carácter e em virtudes ofendidas. Mas, por debaixo, bem lá no fundo, é o mesmo país que vive do seu ressentimento e das suas vinganças pessoais. Desde que descobriu o «direito à indignação» que o País se tornou mais infantil e despropositado — não porque os portugueses não tenham o direito de se indignarem, mas porque a indignação (a coberto da comoção visceral, da revolta pungente) se transformou num negócio político e num espectáculo para as televisões.
No caso da pedofilia, já estava tudo escrito há muito tempo: o que se supunha que seria um processo escandaloso pela natureza do crime propriamente dito, acaba por sê-lo, também, pela forma como o país tenta escapar à imagem que projecta no espelho.
Não é agradável, essa imagem, mas já devíamos estar avisados – o país iria entrar, de facto, em convulsão. É, aliás, extraordinário, que tenham surgido nos últimos meses bastantes vozes preocupadas com a «perturbação nacional», como se fosse negativo o facto de o país se perturbar, finalmente, com o escândalo da Casa Pia. A quantidade de cidadãos que deviam manifestar algum juízo e, pelo contrário, se puseram a citar Kafka a propósito e a despropósito do inquérito judicial, dá para compor um retrato de uma esquizofrenia bem pensante. Na verdade, esta reacção contra «os perigos do inquérito judicial» só é possível num país que atravessou meio século de censura e de vida subterrânea – durante esse meio século a vida da Casa Pia foi silenciada e todos os rumores escondidos debaixo do tapete. Não só na Casa Pia, evidentemente, mas no país inteiro, no país das conveniências e da moral.
Não há nisto qualquer desejo de criar culpados a todo o custo – o ideal seria, aliás, termos um país de inocentes e de insuspeitos (não de bem-comportados). Não temos. Em seu lugar, temos processos incompletos, inquéritos desvalorizados, debates interrompidos, tudo por causa desse silêncio gerido a meias pelos incólumes e desse ruído desejado pelos desgraçados. E temos um magnífico ressentimento português a funcionar contra tudo o que desafie essa tranquilidade do passado, quando o país era um território cheio de melros a cantar nas oliveiras, de ramo em ramo, na alegria da ignorância.

UM ESPECTÁCULO PORTUGUÊS. Sim, fiquei contente quando Paulo Pedroso saiu do EPL. Ouvi na rádio — o espectáculo foi desproporcionado, de qualquer modo. Manuel Alegre, que desconfiava do País e da justiça portuguesa e das instituições e da imprensa e da política — e que comparava o Portugal de hoje com o da ditadura, para concluir que estávamos pior (o dr. Soares já tinha dito quase a mesma coisa) —, voltava a acreditar no País e na justiça. Eu sei que era retórica pura, demagogia, desproporção, todos sabemos. Fiquei contente, claramente contente. Sem cinismo. Por causa da «prisão preventiva», por causa do poder absoluto, por causa de tudo. Mas o espectáculo de desagravo não me convence. Transformado em espectáculo político, o caso de Paulo Pedroso merecia ser apenas um processo judicial. Mas, o que não nos convence não tem, necessariamente, de ser falso.

Outubro 09, 2003

OS PORTUGUESES ACHAM QUE. [MAIS CONTRIBUTOS] O sempre bem vindo Statler, aliás Nuno Jerónimo, retoma o assunto com bastante pertinência:

«Em sondagem da Universidade Católica, o jornal Público revela que mais de metade dos portugueses querem que o Papa resigne. Sou agnóstico, logo não-católico. E verifico, sem grande espanto, que a maioria daqueles que desejam a abdicação de João Paulo II são também eles não-católicos. Esta mania de exigir a separação entre a Igreja e a "sociedade civil" só funciona de dentro para fora. A Igreja reflecte legitimamente sobre o mundo e os ateus agitam-se. Pelo contrário, estes sentem-se no direito de opinar sobre tudo quando se passa numa comunidade religiosa da qual fazem gala de não pertencer.»

OS PORTUGUESES ACHAM QUE. [O PAPA] Mais contributos sobre a questão. Pedro Freitas escreve num mail:

«Acerca do Papa, em primeiro lugar, penso que os não-católicos, ou os católicos não praticantes, podem e devem dar a sua opinião, que deve ser ponderada como qualquer outra, tendo em conta a maneira como é justificada. Eu, sendo católico, sinto a angústia de ver que gente a minha idade (cerca de 30) vê no Papa quase só um símbolo de unidade, uma figura querida, e que segue o que ele diz sem querer pensar muito mais, ou investigar coisas mais profundas.
Quando estive em Roma, por ocasião do Jubileu 2000, o entusiasmo era todo à volta da figura, e pouco das palavras. E se o Papa se mostrou bastante viajado, fisicamente, em termos de doutrina parece-me que o seu maior contributo foi ter impedido avanços ultra-conservadores por parte de gente da Cúria. Em termos de doutrina, não viajou muito. Publicou, sim, muita coisa em termos de doutrina social, especialmente anti-comunista, nada de muito radical.
Em termos de moral, não andou nem para trás nem para a frente. Em termos de vida eclesial, manteve tudo como estava, deslocando mais: mulheres para fora da hierarquia, sínodos meio desconsiderados, bispos que são agentes externos do Vaticano. Em termos de ecumenismo, houve passos visíveis, mas faltaram os invisíveis: os necessários ajustes doutrinais e disciplinares. Enfim, não quero bater no velhinho, mas podia ter sido melhor. Especialmente depois de ter visto o que fez o João XXIII.»

PORTUGUÊS SUAVE, 5. O excelente Nuno Mendes, do Klepsydra, entrou na discussão sobre o Português Suave, que — por determinação de Bruxelas — passam a ser designados de Português; escreve o Nuno (texto que está no seu blog, que aconselho vivamente — não é todos os dias que se pode visitar o blog de um físico, especialista em Instrumentação Atómica e Nuclear):

«O problema desta alteração, mais do que revelar o grau de "pintelhice" patológica dos senhores de Bruxelas que não querem ficar atrás dos USA na prática do politicamente correcto, reside no facto de acabar com uma magnífica síntese do espírito luso. A verdade é que o nome Português Suave diz mais de nós do que 1000 relatórios da união europeia. Enquanto que em Espanha se fumam Ducados, tabaco negro e forte que empesta tudo numa área de 2 kms quadrados, o lusitanus-tabagicus prefere a moderação de um cigarrito com o ar inofensivo de quem amolenta mais do que mata. Todos os portugueses são suaves, ou pelo menos mais suaves do que a grande maioria dos povos com quem nos relacionamos, é a tal história dos brandos costumes que habitam em nós e que estão inscritos no nosso código genético num qualquer gene do porreirismo. Até nos podem obrigar a chamar os cigarritos de Português Bravo mas a verdade é que a malta além de continuar na mesma também não se chateia muito com isso. Já agora uma sugestão para a tabaqueira, e que tal voltar a mudar o nome para Português Saudade? Olhem que vendia...»

O REGRESSO DE JONI MITCHELL. O João Bonifácio esteve fora uns tempos e, no seu regresso, leu o que se escreveu na blogosera sobre Joni Mitchell (nomeadamente as conversas entre o Aviz e o Terras do Nunca). E, com uma justa e natural bondade, escreve sobre a musa:

«Pelas migalhas que recuperei da conversa (até porque não tenho tempo para estar a ir ler duas semanas de blogues a ver o que não li) fiquei com a ligeira impressão de que o Francisco não gostava da mais bela das compositoras femininas do século passado. Se assim for, este mail ainda poderá ser-me útil. Porque me causa alguma tristeza que ainda haja quem não goste de Joni (é-me difícil não me referir a ela no primeiro nome). Passo a explicar. Há cerca de três semanas deu-se o caso de ter de entrevistar Elvis Costello. A meio da conversa o senhor diz-me qualquer coisa de fascinante: "Joni Mitchell mudou completamente a forma de cantar o amor. Tirou-lhe a lamechice. Aristocratizou o banal, o diário. Quando ouvimos Joni Mitchell the world is a better place." Dá-se o caso de eu concordar em absoluto (no que esta palvra tem de mais frágil, e, por isso, comovente) com o senhor Costello. Cheguei tarde às terras da senhora Mitchell. Mas foi o assombro quando me recolhi nesse porto. Porque Joni é "a" mulher. Não é uma qualquer mulher — no sentido em que todos somos alguém, não propriamente ninguém, mas qualquer coisa. Joni não — Joni é sempre Joni —, mesmo que tenha sido todas as mulheres: a amante, a menina pequenina, a mulher que a tudo resiste, a que cai, a que se levanta. E sempre, sempre Joni. Joni levou a ideia de folk ainda mais longe do que Dylan. Impregnou-a de jazz, trabalhou os arranjos ao limite, construiu melodias complexas (e no entanto acessíveis), Joni escrevu como poucas. A dada altura do Aviz o Francisco refere que alguém assinala que "Mingus" é experimental. Sê-lo-á — mas no que a palavra tem de mais frágil, com uma carga de auto-exposição raras vezes vista na música popular. Joni queria escrever canções como Mingus (e Mingus é, juntamente com Brian Wilson, um dos poucos génios absolutos — aqui no sentido de dogma — da música popular do século XX), levar a escrita de canções à condição de arquitectura. "Mingus" é um álbum arriscadíssimo, não polido, não burilado, pejado de arabescos, curvas e contra-curvas. E é a maravilha, acredite-me. Exige, talvez, uma paciência que, por vezes, já não acreditamos sermos capazes de dispensar. Mas vale a pena. Mas se calhar onde Joni está nas suas sete quintas é no território-canção, no ambiente dylanesco de soltar as amarras e deixar-se levar pelas palavras (Joni foi, é preciso não esquecê-lo, amante de Cohen). nesse entido, a trilogia "Blue", "For the roses" e "Courts and Spark" atingem esse patamar de sonho que só estão ao alcance de "Blood on the Tracks" (Dylan) e "Songs of Love and Hate" (Cohen). Se o Francisco já sabia tudo isto — então perdoe-me a intromissão. Caso contrário aconselho-lhe (com tudo o que de arrogância tem esta achega) a procurar os três discos que lhe referi. Estou certo que com o tempo descobrirá em Joni mais que uma simples baladeira — eu, pelo menos, ainda lá volto, vez por outra, ver como andam as histórias de desamores dessa tão grande mulher.»

Fico sempre comovido com a comoção dos outros — neste caso, com a do João Bonifácio. E eu, que gosto de todo o Cohen e de Blood on the Tracks, fico a pensar que talvez tenha mesmo perdido este combate com a Joni Mitchell. Não sei, não sei. Terei de ouvir outra vez.

OS PORTUGUESES ACHAM QUE, 3. O Pedro Cruz Gomes, do Planeta Reboque comenta «a questão do Papa»:

«Parece-me simples: um líder, ou se idolatra ou se abandona. Aos primeiros chama-se católicos, aos segundos, não-católicos. Tive um professor jesuíta que dizia que não existiam católicos "não-praticantes": ou se praticava ou não se era católico. Acredito que a separação também deve funcionar com os papas: love them ou leave it.»

LEITURAS. Há quase sempre muitas coisas para eu concordar no Contra-a-Corrente — uma delas foi o seu pequeno lembrete sobre Coetzee por alturas do Nobel. Vejo que ambos esperávamos pela «nomeação» de Philip Roth. Depois, comungo com o Carlos uma espécie de «amor magoado» por Évora. Na «questão do Papa» o Contra-a-Corrente chama mais uma vez à razão: por que razão a maior parte dos comentadores mais aguerridos sobre o assunto não é católica?

NOITE, O QUE É?, 13. A maior parte das vezes, a noite é uma espera. A luz vem a meio da noite, às vezes não vem, um fio atravessa o céu. Lembra essas paisagens, ramagens das árvores, tardes pacíficas, a vida que há-de vir. Nestas alturas — agora — os dias mais luminosos, incendiados, aparecem a meio da noite, como uma visão, uma letra magnífica. Coisas que não se ouvem, coisas nómadas, súplicas, colibris, todas as coisas que importam. A noite ocupa-se nisto, enumerando tudo o que fica de algum lado do mar, escrevendo, poisando os braços sobre a mesa.

IMAGENS. Durante uns dias, para testar a curiosidade — que é sempre cruel —, usei um contador Bravenet. Não interessa. Do que eu gostei realmente, confesso, foi ver que computadores visitavam o Aviz; ou seja, tudo oportunidades para mostrar a minha simpatia pelos utilizadores de Mac (classic, OS ou OS X) ou de uns estranhos Linux, e de browsers como os que uso ou usei, Opera, ICab ou Mozilla e Safari. Imagens.

PORTUGUÊS SUAVE, 4. Sobre o texto acerca do Português Suave começam a chegar alguns textos mais serenos — e até alguns de fumadores, caramba. Além disso, há reacções ao assunto através do Luís Olival, do Maranhão (que prefere SG Filtro) ou do Apenas um Pouco Tarde, que vai fumando enquanto aprecia a chegada de mails cheios de saúde & moralidade à minha caixa de correio — e lê os livros do Paulinho Assunção. O BlogameMucho, que é médico, também gosta mais de SG Filtro.

Cláudia Cateano escreve, para abrir a lista:
«Realmente nunca sei bem o que me move, agora dou por mim a juntar-me à "chuva de mails" que diz ter recebido nos últimos dias à conta disto, valha-me ao menos não me estar aqui para me juntar ao coro (espero). De resto, logo que li o post sobre o Português Suave, no blog, imaginei que a coisa não se ficaria por ali. Tento ser breve: subscrevo inteiramente que «tirar o “Suave” da designação “Português Suave” é uma palermice que só cabe no cérebro de uns merdas de Bruxelas». Uma coisa, no entanto, me deixou confusa. Não me espanta que não reclame contra a proibição de fumar nos aviões, transportes e em alguns lugares públicos (não o tenho por terceiro mundista ;) ), mas aqui começa a dar de si esta convicção de pró-tabagista não praticante (é uma causa nova que arranjei recentemente, à custa dos disparates dos merdas de Bruxelas e dos que pertencem à mesma escola). Se sim, em alguns lugares públicos, por que não noutros? Que critérios? Lia há dias (talvez no “Público”, talvez há semanas, já não sei) que em alguns bares nova iorquinos (talvez Nova Iorque, meu deus, a memória... com certeza nos EUA) a proibição do fumo já vingava de há algum tempo a esta parte. Lembro-me que se tratava de uma espécie de roteiro sugerindo sítios onde se poderia ouvir jazz e dei por mim neste exercício meio atrapalhado de imaginar um bar limpinho, iluminado e arejado com uma boa banda de jazz. Foi difícil, há clichés que não consigo largar, o jazz com fumo (nem que seja o fumo dos outros) é um deles. Mas de volta, se para algumas pessoas um cigarrinho é indispensável com o café depois do almoço, para outras é coisa para anular todo o prazer da melhor refeição... E então? Quem pode mais? Quem tem mais direito ao prazer, e quem deve abdicar? E por que há-de o não-fumador passar por "tipo chato e picuinhas" se reclama com o fumo de um cigarro? Curioso é isto ter muito pouco, mas muito pouco mesmo, que ver com o Português com ou sem “Suave”, digo eu.»

Também Paulo Caldeira, que é médico (e com quem tenho um problema a resolver, a propósito de um golo de Costinha), tem opinião sobre o assunto:
«Sou também fumador e, por um acaso, também sou médico. Não me orgulho de fumar, claro, mas também não o sinto como um crime. Sei bem quais os malefícios de fumar, para o fumador. No entanto os eventuais problemas do fumador passivo ainda não são uma evidência científica indiscutível. É muito difícil caracterizar essa entidade (fumador passivo), e mais difícil arranjar grupos homogéneos e comparáveis, quer no respeitante à quantidade a que estão expostos quer em relação a outras exposições. Por outro lado existe um importante componente genético no cancro do pulmão que torna só algumas pessoas muito susceptíveis de o adquirir.
Seria também engraçado que se formaça a "liga" dos peões. E que estes exercessem um pressão considerável na mole imensa de condutores que, por mero vício e comodismo, poluem o ar que respiramos. E que houvesse campanhas impiedosas para que deixassemos de conduzir. E que os carros tivessem alterar os seus nomes atrativos e tivessem estampados no volante "conduzir mata".
Lembrei-me de uma campanha que houve há anos, em que aparecia uma planta de Lisboa com uma pequena área que era o gueto dos fumadores. Quem sabe se um dia não nos encontraremos lá!»


Outro fumador, Rui Silva, escreve:
«Sou fumador (por enquanto) e padeço dum vício nocivo mas que me dá algum prazer. O que parece interessante é o facto de se estar a assistir a uma “campanha” de índole fanática contra nós, talvez importada, com a validade de fora de prazo, dos “States”. É fanatismo puro e duro, uma campanha tolerada e incentivada, o que é grave, pelas autoridades que nos governam. As “deliciosas” mensagens escritas a negro de luto antecipado, nos maços do nosso “tabaquito”, têm, certamente, cobertura oficial e, espero, suporte científico. O fanatismo é intolerável, venha ele donde vier e sob que pretexto exiba e, contra isso me bato. Penso, contudo, que se é assim tão mau, quem nos governa deveria ter a coragem, para salvaguarda da saúde pública, de mandar retirar do mercado um elemento que, como dizem, é altamente prejudicial à saúde. Tenham a coragem de o proibir como proíbem e retiram do mercado determinados fármacos, alimentos e, como o fazem ou fizeram a livros “inconvenientes”. Assumam-se. Lutem contra as tabaqueiras, prescindam da receita fiscal que a venda proporciona e talvez a economia paralela dos contrabandistas floresça. Retirem as compensações financeiras às plantações de tabaco e, haverá mais pessoas a protestar, agora para que se fume.»

Também recebi um mail do Mário Filipe Pires, do Retorta, em jeito de solidariedade:
«Não fumo, mas não me passa pela cabeça obrigar os fumadores a não fumarem. Há situações onde penso que é possível conciliar ambos, infelizmente a falta de bom senso é comum a algumas pessoas de ambas as "convicções", pelo que debates destes se saldam por um espectáculo deprimente. Apenas em alguns restaurantes me incomoda o fumo de cigarro quando estou a desfrutar de uma refeição; no entanto, aqui é mais a falha do restaurante em não proporcionar condições para que não haja transferência de fumos entre as áreas.»

OS PORTUGUESES PENSAM QUE, 2. Sobre a matéria relacionada com o Papa e a sondagem do Público (uma larga percentagem de portugueses pensa que o Papa deve abdicar), houve várias reacções ao texto, sobretudo em alguns blogs. No entanto, Shyznogud envia este mail:
«Quando li o seu comentário à sondagem sobre o que pensam os Portugueses do Papa, não pude deixar de o considerar limitado. Na sexta-feira um amigo meu mandou-me a citação do texto do Pacheco Pereira, que V. refere, acompanhado de uma pergunta em que dizia qualquer coisa como “é bem vista esta do Pacheco Pereira, ou não?” Numa primeira resposta imediata respondi-lhe da seguinte maneira: “A ideia que serve de pano de fundo até que não é mal vista, não senhor. Mas a personagem escolhida? Aiii... destilações de fel lá mais para a noitinha, a propósito do senhor de branco e de outros que me venham aos cornos...” A minha resposta levou-o a tecer alguns comentários a propósito do meu assumido ateísmo. Bem, os comentários dele não vêm ao caso. Mas não resisto a reenviar-lhe o segundo mail que lhe enviei: “Não, não sou como o outro [esta vinha a propósito de uma frase dele que dizia “tá visto que és como o outro: «Tudo o que cheire a padralhada é dar para baixo! Se há escândalo conta-se, se não há, inventa-se!»], mas não consigo de deixar associar este Papa aquilo que de mais obtuso tem a Igreja Católica. E, se calhar, onde tu vês "martírio cristão" eu vejo uma espécie de "empecilho levado até ao limite" a mudanças profundas (e fundamentais) no seio da tal Igreja que, quer se queira quer não, tem uma influência brutal neste nosso mundinho. Muito resumidamente é isto. E termino este como terminei o outro. Muito resumidamente é isto... que é profundamente diferente das suas conclusões do último parágrafo...»

Noutro sentido, Miguel João Vaz pensa que há razões para que os católicos defendam a abdicação do Papa:
«Penso que põe a questão do Papa em termos errados. Os idosos que têm a idade e as doenças do Papa não são obrigados a fazer viagens longas e cansativas. Nem muito menos a representar a Igreja em cerimónias oficiais. É essa afronta, ao seu sossego, ao merecido descando que leva as pessoas a aceitar que o Papa abdique.»

Outubro 07, 2003

REPARO. O Oceanos, e bem, dá-me uma lição sobre Sepúlveda, associando-me à vaga anti-Sepúlveda que por aí anda. Mas há duas questões essenciais neste justo lembrete do Manuel Alberto Valente: uma, não se trata de o contrapôr a Francisco Coloane (era esta a questão de um texto anterior, sob sugestão do Outro Eu), mas de optar entre um e outro na matéria que estava em questão, os mares do sul; outra, as opiniões políticas (mesmo as declarações sobre o seu passado, sendo verdadeiras ou não) de um cidadão, independentemente do seu trabalho literário. Sobre isso, três coisas: uma, não concordo com as opiniões políticas de Luis Sepúlveda; duas, essas opiniões não validam o seu trabalho literário, nem o seu trabalho literário pode validar as suas posições políticas; três, nunca esteve em causa aquilo que o Luis fez pelo Chile, dentro e fora de fronteiras, durante a ditadura de Pinochet – mas a leitura da questão chilena trinta anos depois. De resto, o Luis é um tipo às direitas (vade retro, pensará ele).
Mas há uma nota curiosa: o Manel deixa cair, veladamente, um pequeno toque: a irritação que causam os autores que «vendem muito». Depois de ter sido acusado pelo Eduardo Prado Coelho, de favorecer os autores que «vendem muito», não sei o que pensar. Vamos tomar um cafezinho aí na Av. da Boavista, Manel?

NOITE, O QUE É?, 12 Somos ligeiramente escravos da insónia. Podíamos dormir, sim, esconder-nos da noite. Há uma luz em qualquer lado, em qualquer lado se encontra. Uma janela. Um sabor, um cheiro que me persegue. Depois, como um relâmpago, acende-se uma letra branca a meio da noite, ficamos à sua espera dela durante horas, para que nos livre do medo e nos prepare para o que há-de vir. Um perfume que me persegue, a todas as horas da noite, entre dois mares.

OS PORTUGUESES ACHAM QUE. A sondagem sobre o que os portugueses pensam do Papa, que veio nas páginas do Público, é incómoda. Sobretudo quando ouvi os seus números apresentados na rádio, logo de manhã, com aquela frieza que os noticiários requerem: «Os portugueses acham que o Papa deve abdicar.» Concordo com o que o José Pacheco Pereira escreveu sobre o assunto, independentemente do que possa pensar sobre «o alcance do seu pontificado». Há, naquela figura doente, gasta, frágil, a marca de uma humanidade difícil, o gesto desse derradeiro esforço em sobreviver. Não é agradável, essa imagem — é o retrato daqueles que escondemos longe da vista, em lares, hospitais, na sombra, na escuridão. O Papa deu-lhes um rosto, o seu. E lembrou o rosto de todos os outros, que estão na escuridão.
Ao ouvir esta manhã que «os portugueses acham que o Papa deve abdicar», devíamos perguntar-nos sobre o que incomoda os portugueses naquela imagem doente, e que contrasta com a «boçalidade juvenil», o apelo à eterna juventude, à vitalidade sem barreiras nem interrogações. Acontece que «os portugueses» que acham que o Papa deve abdicar são, na sua maioria «não-católicos» ou «católicos não-praticantes»: para eles, o Papa é uma figura decorativa, um emblema, o ícone de uma fé que interrogam episodicamente. E lembro-me dos debates absurdos que se leram na blogosfera sobre «religião & política», em que quase toda a gente falava de «política», do «Deus de Bush» e de «clubismo» — lembram-se?
E, de repente, «os portugueses» que «acham que o Papa deve abdicar» pareceram-me pequenos monstros que preferiam ver o Hugh Grant no Vaticano: um emblema, um rosto agradável, um riso, só isso, um atleta.

POSTA RESTANTE. O Sameer Baz, do Resistência Islâmica envia um mail com saudações por ocasião de Yom Kippur. Caro Sameer: «Shana Tovah ve Metukah.»
O Rui Rey, de Macau, escreve sobre Tabajara Ruas (a propósito do meu texto acerca de O Fascínio): «Depois de ler aqui há uns tempos no Aviz sobre Tabajara Ruas (se não me engano, chamava-lhe “escrita fatal”, consegui comprar Região Submersa, e confirmei. Posteriormente, em Portugal, neste Verão, comprei Fascínio e Netto Perde a Sua Alma. De todos, gostei mais deste. A descrição da perda da alma de Netto, é sublime. Tenho espalhado o nome do autor pelos amigos — “é escrita fatal”, digo-lhes. Eles confirmam.»

PORTUGUÊS SUAVE, 3. Continuam a chover mails sobre o tabagismo — 90% deles são antitabagistas. Alguns querem entrar pela minha casa dentro e proibir-me de fumar um charuto que seja. Sou chamado, mais uma vez, de «cúmplice no lento assassinato» de muitas pessoas (Lúcia Vale), de «tentar inculcar vícios terceiro-mundistas» (Fátima R. Henriques), de promover «um vício que já se provou ser pernicioso» (Luís Ferreira), de ter, uma vez, através da televisão (programa «Prazeres», RTP), permitido que se fumassem charutos enquanto se falava de charutos, etc., etc. As pessoas preocupam-se. Eu compreendo-as. Sou um assassino viciado e terceiro-mundista.
Comecei por escrever que tirar o «Suave» da designação Português Suave é uma palermice que só cabe no cérebro de uns merdas de Bruxelas. De resto, nunca fumo onde está afixada a placa «proibido fumar» nem me manifesto contra a proibição de fumar nos aviões, nos transportes e em alguns lugares públicos. Mas isso não basta — um leitor defende que se deve deixar de fumar nos bares e restaurantes. Estou a ver onde isto vai dar.
Da próxima vez que encontrar o melhor dos médicos da net, o nosso doutor, falo-lhe do assunto: «Será normal?»

E, PORTANTO, ERA VERDADE. Martins da Cruz nunca foi um personagem simpático. Não tinha de ser, é verdade — mas também não tinha de ser obtuso. Tenho razões várias (muitas delas já explicadas pelo Homem a Dias) para o ter nessa conta. As notícias da semana passada sobre o caso da «filha do ministro» confirmam tudo. Que não existe «palavra de honra», que havia ligações entre os dois ministérios (o da Ciência e Ensino Superior — e o MNE), e que, como muito bem diz o Terras do Nunca, era bom que deixássemos de falar em «alegado favorecimento». Esse favorecimento existiu. E o «alegadamente» é uma das expressões mais palermas do jornalismo de hoje.
De resto, assim começa um governo a cair.

Outubro 05, 2003

OUTRO, EU. Reparo agora que o Outro Eu refere o meu regresso dos «mares do sul» (a falar verdade, não regressei...). O Carlos espera que eu tenha regressado «mais Coloane» e, provavelmente, «menos Luis Sepúlveda». Ó Carlos, mas o Luis Sepúlveda não é dos mares do Sul; é de Berlim, de Paris, um europeu — até nas opiniões que tem sobre o Chile, e que podiam ser ditas por qualquer um em Badajoz. Eu já tinha ido mais, muito, muito «mais Coloane», esse velho fabuloso que um dia — há cinquenta e tal anos — partiu dos mares do Sul (os verdadeiros, não os de Sepúlveda) num cargueiro, em direcção a Lisboa. Entretanto fica o aviso aos leitores: continua na TSF o melhor programa de entrevistas. Chama-se «Pessoal e Transmissível».

PORTUGUÊS SUAVE, 2. A reacção dos anti-tabagistas ao texto sobre o Português Suave ultrapassou o que pensava que seria possível, com um nível de violência tal que me fez procurar imediatamente um cigarro, só para comprovar o que diziam (ainda por cima, não fumo Português Suave): «sujo», «doente», «criminoso», «suicida», etc., etc.. Nesta matéria, ninguém poupa adjectivos. Um desejo de imolação e de punição exemplar percorre os portugueses saudáveis e anti-tabagistas. Compreendo-os: descobriram a verdade.

TRAVESSIA. Há um fio no meio do céu, uma linha que atravessa o meio do mar.

AS ÁRVORES. Eu espero, sim, que essas árvores cresçam. Adormeço com elas todas as noites, embalado pela sua sombra. Lembro-as de memória, sobre a relva verde. Lembro as suas folhas, caindo de noite. Mesmo as que ainda não vi, eu espero que cresçam, que me esperem, que me abriguem nesse dia em que mais precisarei delas, ouvindo o ruído do mar não muito longe. Tenho, a cada minuto, saudades dessas árvores.

TABAJARA RUAS. Fiquei de insónia até tarde — e li todo O Fascínio, do brasileiro gaúcho Tabajara Ruas (edição Ambar). Talvez seja pela impressão de o ter lido há pouco, mas trata-se de um livro mais do que recomendável. Escrito no fio da navalha, nesse lugar onde cada palavra mede o lugar onde aparece escrita — em busca da crueldade, do sangue, da memória daqueles personagens que nos devolvem um Rio Grande do Sul estranho, com as neblinas da noite, o pampa transformado em território de assassínios e de esquecimentos. Nenhuma daquelas mortes está a mais (nem os 150 cadáveres, degolados um a um pelo coronel-bisavô), nenhum daqueles nomes nos abandona até ao fim do livro, nenhuma alma-penada deixa de querer mostrar-se de noite, entre as buganvílias. Depois, não me venham falar do «fantástico latino-americano».

ABSURDO. Eu sei que este texto é tardio, mas gostei de ver e ouvir defender o indefensável durante dois dias. A questão da «filha do ministro» deixa qualquer um paralisado diante do absurdo — como se a demissão de Pedro Lynce viesse limpar a questão. Não veio. Martins da Cruz está metido nela até ao pescoço, mas esbraceja com o selo da glória sobre a fronte, inocentado pelo primeiro-ministro. Aliás, o próprio Pedro Lynce se demite por razões absurdas — se é por este caso, admite que houve ilegalidade; se é pelo das propinas, admite que estava a agir mal. Mas o mais surpreendente não é isso, mas sim a dimensão que o caso da «filha do ministro» adquiriu, como um novo escândalo nacional. Acho mais escandaloso, muito mais, o que se passou — em matéria de «dignificação da vida política», como gosta de referir o dr. Sampaio sempre que alguém ergue a voz para além da desconfiança, como um bom regedor — em redor de Maria Elisa. Isso sim, dá uma ideia da forma como os políticos se comportam diante dos seus eleitores.

BANALIDADE. Conta o sempre atento Sem Caracteres que, no dia do anúncio do Nobel para J.M. Coetzee, Mário Crespo perguntou na SIC Notícias a Clara Ferreira Alves, sobre Desgraça: «É um livro para eruditos lerem?» A necessidade de esclarecer isso é a prova de toda a baixaria. «Diga-me, Os Maias é difícil?» Se for difícil, passo a ler a Cruzadismo...

HAIFA. Daqui a poucas horas começa Yom Kippur. Terminará amanhã à tarde. De Kol Nidrei a Ne’ilah. Ouvir-se-á o som dos sons. Mas é mais do que mistério, esse som que se ouvirá uma só vez. Ele sobrepõe-se ao silêncio que domina o dia e a noite. É o mais estranho de todos os dias da minha própria aprendizagem, da minha leitura. Mas, de qualquer modo, é um dia de tolerância para quem não tem «identidade feita» ou «identidade encontrada».

«Ser dono da verdade é um acto de idolatria», escreveu Nilton Bonder sobre isto tudo. «A certeza absoluta sem o registo de vozes dissonantes é a usurpação de meu nome e do meu cedro. Compreender não é concordar, mas saber que a compreensão é um atributo imprescindível a quem não é perfeito.»

Yom Kippur é também o dia do futuro — o dia do próximo ano. E o dia em que começa a identidade.

AS PERGUNTAS.

Não tem rosto, o Deus dos perplexos. Nem voz.
Nem arrependimento. Nem a alegria dos alegres
ou o medo da escuridão. Não posso dizer-vos como
se encontram os seus caminhos, se o melro poisa

nas hortas junto do rio, ao adivinhar a tempestade.
Deus predador, o nosso, prudente, interdito,
que desagrada ao canto mais simples. As nossas
pegadas ficam no deserto, aguardam a passagem

como um fantasma que se desprende da chuva.
Esta luz é incerta, balança sobre as varandas, ameaça
os dias, converte ou desarma todas as palavras certas,

todos os olhos abertos. Não tem rosto, o Deus dos
perplexos, não caminha nos precipícios, não arde
como a urze fitando o céu, não o comove a morte.

Outubro 04, 2003

INTRÓITO. O Valdemar Cruz entrou na net: o seu Intróito já está aí, disponível. Não chamo a atenção para o seu blog por se tratar de um jornalista (e portista...). Faço-o porque é um homem atento que certamente vamos ler.

FROM THE GARDENS, 2. Lembra-me o ruído do mar num jardim onde a relva cresce lentamente. Lembra-me as árvores desse jardim, o baloiço, a rede entre a parede de casa e a árvore de onde caem frutos e folhas amarelecidas. Lembra-me o fim de tarde. As horas de calor. As horas do amanhecer. As insónias. Lembra-me um cheiro. Um nome que trago comigo. Um livro poisado na varanda, junto de uma mesa onde se almoçou tarde. Lembra-me o ruído do mar, ao longe, perto. Lembra-me um portão de madeira. Lembra-me uma voz. Regar a relva, em fato de banho. O mundo tem coisas quase perfeitas. Quase sem nome.

FROM THE GARDENS, 1. Ao contrário do Terras do Nunca, o From the Gardens Where We Feel Secure não me lembra as paisagens dos crepúsculos do Jaquinzinhos (já agora, agradeço ao Retorta ter-se oferecido para me gravar o disco, e ao Rui Batista idêntica oferta — a Jo-Jo’s do Porto, como já disse, tem o disco à venda). Não me lembra o mar. Lembra-me o ruído do mar.

PORTUGUÊS SUAVE. Sou fumador. Não fico contente com isso, mas não dou lições de moral sobre a matéria — escusam de me mandar mails convidando-me a largar o vício. Mas fico triste por saber que o Português Suave deixará de se chamar Português Suave em breve para se designar, apenas, de Português. O Português Suave é o símbolo do velho fumador português, o homem que desconfiava dos cigarros de filtro. Com o desaparecimento dos velhos cigarros sem filtro, como o Três Vintes (uma das mais belas embalagens de sempre dos cigarros portugueses), o Paris (para não falar dos Definitivos, dos Provisórios ou dos Kentucky). Com a evolução do mercado desapareceram marcas emblemáticas; ao acaso, lembro os Kart («quilómetros de prazer», king size e normal), os Sagres, os Ritz nos dois formatos, gigante e normal, os Tamariz, os Monserrate, os Porto (que o meu pai fumava, antes de mudar para o Ritz, para os SG Gigante e, depois, deixar de fumar), os Sporting, os Sintra, os Negritas, os 2002 Control, os CT, os Díli, os Marujo, entre tantos outros. Um dia, em Nampula, em viagem, encontrei um dos mais fantásticos resíduos dessa indústria antiga e fatal: um painel gigante, assente nas ruínas do velho Hotel Nampula (um despojo da guerra civil) — «LM, o cigarro do desportista». A «indústria do mal», tal como o «império do mal», está sob fogo cerrado. O Português Suave resistiu enquanto pôde, mas a legislação comunitária impede designações como light, suave ou outras que possam indiciar que «fazem menos mal». Que eu saiba, no parlamento europeu (o Pacheco Pereira que me corrija), só o grupo de eurodeputados do PCP protestou na altura contra esse ataque ao Português Suave. Os legisladores não podem condoer-se diante dessa peculiaridade — um «português suave» mesmo (lembro um dia em que Caetano Veloso, em Lisboa — ele fumava, sim —, comprou maços e maços de Português Suave para levar para o Brasil). Esse «suave» não significa «light». Não é, sequer, uma desinência. É uma marca. Não levem a mal, mas esta também é uma razão para forçar o referendo à constituição europeia. Não é para chumbar seja o que for, por princípio. É para eles saberem que têm de pagar um preço por nos tirarem o «Suave». São uns chatos. Uns merdas. Uns merdosos.

Outubro 03, 2003

PAGANI. O João, do Terras do Nunca, certamente para testar o meu complexo de afinidades «ideológicas» ou o mundo das minhas «afinidades electivas», recomenda-me Herbert Pagani, o francês que nasceu judeu na Líbia, e o seu duplo Megalopolis (que quase serviu de bandeira a uma das campanhas dos socialistas franceses; Pagani esteve ligado ao PSF). Nesse disco, que os anos oitenta tornaram profético, Pagani ironizava bastante sobre a «sociedade de consumo». «Consommateurs, consommatrices!», gritava uma das vozes. Isso substituía o «Cidadãos!» do dr. Sampaio. Hoje seria o «Contribuintes!» da vida toda. Tudo se conjuga. Entretanto, recomendo vivamente a releitura que o Terras do Nunca, está diariamente a fazer de Jacques Brel.

VIRGINIA ASTLEY. O Alberto Gonçalves indicou-me a loja de discos Jo-Jo’s, no Porto (na fantástica Rua de Cedofeita, 509-511) para comprar o From the Gardens Where We Feel Secure. A Jo-Jo’s tem um site muito eficiente, onde pude encomendar os meus dois exemplares, que levantarei no Porto na próxima semana. Mas, para quem quiser, a Jo-Jo’s envia para casa em 24 a 48 horas. Tudo se conjuga. O mundo ainda tem coisas perfeitas para revelar.

Outubro 02, 2003

CARTA DE MOÇAMBIQUE. Do excelente José Flávio Pimentel Teixeira, que vive em Moçambique (onde fez um muito bom trabalho em nome da cultura portuguesa), recebo um mail sobre as transmissões dos jogos de futebol através da RTPi, comentando uma frase de um mail anterior de Nuno Morais sobre o assunto (publicada no Aviz hoje de manhã). Diz isto, o Zé Flávio:
Sem grandes lamúrias. Cito o que Nuno Morais escreveu: «Não pude ver o jogo — continuo sem perceber a política de programação da RTPi; talvez a limitação seja minha.» Dos jogos da Liga dos Campões será perceptível que a RTP não tenha os direitos: triste ou dificilmente perceptível, mas enfim. Mas é absolutamente espantoso que não transmita os jogos da selecção. Anda o país a esbanjar milhões a construir estádios para inglês ver (salve-se o de braga, que só de fotografia dá água na boca) e não se pode gastar uns tostões (ai, ai que saudades) para transmitir os jogos de preparação do europeu para os emigrantes e as ex-colónias (qual lusofonia?, a bola é o que sobrou do império!)? É inenarrável. Pois basta a SIC ou a TVI oferecerem mais e não vemos os jogos. E nem sequer avisam, à boa maneira ditatorial escondem as más notícias ou as pequenas derrotas. Aqui, em Maputo, no último Portugal-Brasil organizou-se um jantar com ecrã gigante para ver o jogo, ali no Marítimo, diante do Índico; umas largas dezenas de pessoas. Chegada a hora do jogo, nada! Ninguém queria acreditar. O espanto e a raiva, os palavrões. Eu na esplanada a telefonar para Lisboa (acho que passou na SIC) e vá lá que havia parabólica e que um canal sul-africano estava a passar o jogo. Entre o sintonizar e o não sintonizar chegámos ao quarto de hora, já havia 1-0. E o mesmo na inauguração do Alvalade XXI (ok portista, eu sou um moiro verde). Também se pode perceber (os direitos do jogo deviam ser do Manchester). Mas a RTP passou dias a anunciar a inauguração, o jogo, o Manchester, fez a ligação directa, transmitiu o "espectáculo" (pobre, mas a bola era que interessava) — estupidamente com os mesmos intervalos que aí havia, publicidade em Portugal oblige — e em cima do jogo, dez minutos antes a anunciar que não transmitia o jogo. E lá está, tantos a sair de casa a correr em direcção à parabólica/TvCabo mais próxima. Conversa de emigrante (ninguém nos respeita, etc e tal). Mas também conversa de quem vive em Moçambique, onde todo este anti-portuguesismo constante se dilui quando o apito soa e o esférico começa a rolar no tapete verde (Gabriel Alves dixit).

OS CRITÉRIOS DA ATROCIDADE. O Pedro Sá, no Descrédito, sugere uma coisa curiosa ao Nuno Gouveia, do Virtualidades, em resposta à pergunta deste último sobre o facto de a esquerda não se manifestar tanto sobre os crimes de Pol Pot como sobre os de Pinochet. Lembra avisadamente P.S. que ele há razões: o Chile está civilizacionalmente mais próximo de nós, que a intervenção americana e a morte de Allende foram factores determinantes, ou que o Cambodja é um país pequeno.
Ora aí está um problema.
Não alinho na desvalorização do 11 de Setembro chileno ou das ditaduras sanguinárias da América do Sul (neste momento abriu-se o debate no Brasil sobre a «guerrilha do Araguaia», um tema central e esquecido) — mas não caio nas mistificações ridículas, nem quando são repetidas até à exaustão por escritores-visitantes. No entanto, acho que esse argumento usado pelo Pedro pode, involuntariamente, contribuir para a banalização do mal. Já tratei o assunto na Grande Reportagem mas acho que vale a pena referir um interessante comunicado da Amnistia Internacional, datado de 9 de Abril último sobre os massacres do Congo/Brazzaville, referindo testemunhos de assassínios deliberados de populações desarmadas e indefesas por forças governamentais do exército regular e por ninjas. Resultado: desaparecimento de milhares de pessoas (muitas delas tentando escapar aos conflitos na vizinha República Popular do Congo e dos ataques de países cúmplices, como Angola). Só em Brazzaville, em Abril de 2003, milhares de pessoas foram vítimas de uma total inoperância das organizações de direitos humanos da ONU (nomeadamente do ACNUR). Numa segunda-feira de Maio de 2003 mais de duas mil pessoas foram mortas a sangue-frio no Congo/Kinshasa, na província de Ituri, no mesmo dia em que tomava posse o presidente Kabila. As atrocidades cometidas no Congo são já consideradas as mais violentas e criminosas da história da humanidade depois da II Guerra e podem acrescentar-se às «catástrofes humanitárias» (é esta a designação hipócrita utilizada, para não ferir susceptibilidades dos países da antiga «linha da frente», quando se quer falar dos ataques sobre a população civil) do Ruanda, do Uganda, da Etiópia, de Angola ou do Zimbabwe. Tal como no Cambodja, a cor das vítimas tem um peso substancial. Lá, por ser um país pequeno. Em África, naturalmente, por serem pretos. Como nos habituamos aos números dos pretos mortos, ou dos cambodjanos chacinados por um homem que se julgava Estaline, achamos que há um gap civilizacional. Que a vida não tenha importância, lá, pode discutir-se. Que a vida deles não tenha importância para nós, acho absurdo. Evidentemente que a cor dos carrascos também tem importância. Se for preto ou cambodjano, há sempre alguém tentado a relativizar.

FROM THE GARDENS. Acabo de saber pelo Homem a Dias, do Alberto Gonçalves, que está à venda o From the Gardens Where We Feel Secure em CD, e o Mário Filipe Pires, do Retorta, confirma. Mas onde é que posso ir já comprar dois exemplares do disco — e mandar um pelo correio? Vá, digam. Vá, até podem piratear.

JAIME GAMA. As declarações de Jaime Gama ao Público de hoje são importantes. Mostram aquilo com que devemos discordar na questão da «constituição europeia». A primeira das coisas com que se deve discordar abertamente é com as declarações de Gama — que chama «paródia democrática» à eventual realização de um referendo sobre a constituição europeia. Independentemente da avaliação sobre os «mecanismos políticos» que falam em nome de Jaime Gama (o principal é o facto de, nesta altura do campeonato, não se poderem pôr em causa as conquistas da burocracia de Bruxelas e da sua linguagem — o «consenso»), seria importante perguntar se o risco que a Europa corre com esse eventual referendo é maior ou menor do que a sua submissão à «paródia democrática» que levou à elaboração da proposta de Giscard. Vale a pena ler o texto do Terras do Nunca sobre o assunto.
Já agora, por falar em Terras do Nunca, que anda muito breliano e que dedicou um texto de Brel ao Aviz a propósito da série «A noite, o que é?», desta vez chegamos a um acordo musical: o João propõe ouvir Rufus Wainwright. Depois da nossa conversa sobre Joni Mitchell, o Rufus parece-me consensual.

RELIGIÃO & POLÍTICA. A propósito de um texto antigo do Aviz sobre religião e política e sobre o facto de eu achar relativamente absurda a expressão «democracia cristã», o Miguel enviou um mail:

«Não consigo conceber a democracia cristã como o apropriar da religião por parte de um punhado de homens que forma um partido. A democracia cristã encontra o seu fundamento na Doutrina Social da Igreja, actualizando-a e convertendo-a em manifestação política, e nessa actualização e conversão, a DSI perde a sua vertente religiosa e, nesse sentido, deixa de poder servir como referencial aos católicos. A democracia cristã passa pois a estar na disponibilidade do homem, católico ou não, como um conjunto de ideias políticas, tão discutíveis como quaisquer outras, e em nada dependentes da fé. Disso se apercebeu a Igreja Católica, que nunca conseguiu ter boa relação com os partidos democratas cristãos, e que nas suas encíclicas sempre definiu a democracia cristã como um movimento social, e nunca religioso. Disso se apercebeu também a nossa Igreja do pós Revolução, que se desdobrou em iniciativas várias para impedir a existência de um partido democrata cristão em Portugal. Concebo a democracia cristã, sobretudo na sua segunda fase, a fase do pós-guerra, como um conjunto de partidos que encontrou na Doutrina Social da Igreja os princípios básicos de actuação política. E esses princípios, ao contrário do que normalmente se pensa, não estão na esfera moral, mas sim na esfera social. É o princípio da solidariedade, da subsidiariedade, da dignidade humana como valor fundamental...
O que verdadeiramente distingue a democracia cristã é precisamente o de apenas se apoiar num pequeno conjunto de princípios, embora muito fortes, que comportam construções diversificadas e que facilitam a sua estruturação em partidos catch all. O que distingue a democracia cristã não é o seu apego aos valores morais da Doutrina Social da Igreja, bem mais presentes em partidos conservadores, mas sim o seu apego à construção e reforma social de acordo com aqueles princípios que, de uma assentada, impedem Estados centralizadores, totalitários, socializantes, egoístas, liberais, assentes no capital.
É por isso uma doutrina mais pragmática, mais vocacionada para o Governo e para a reconstrução dos países do pós-guerra, do que propriamente para os problemas morais. Certo é que existem variadas modalidades de partidos democratas cristãos, consoante os sistemas políticos em que se inserem, mas o que os caracterizava era precisamente o de conseguirem congregar pessoas de vários quadrantes políticos, mais preocupados em reformar de acordo com princípios básicos, do que propriamente discutir as ideologias. Actualmente, a democracia cristã não faz tanto sentido, porque grande parte das suas conquistas ideológicas se estenderam a vários quadrantes políticos. A economia social de mercado, a descentralização, o humanismo económico e a aversão por estados socializantes ou excessivamente liberais fazem já parte da cultura política de partidos políticos de direita e de esquerda, sem necessidade de se apoiar na Doutrina Social da Igreja.
Em resumo, do estudo que fiz da Democracia Cristã, consigo concebê-la mais como uma prática de governo, tendencialmente de centro-direita, do que como uma verdadeira doutrina política que misture religião e política. E perante uma observação dos vários partidos democratas cristãos europeus, penso ser a interpretação mais correcta.[…]»

O NOBEL. Raramente o Nobel nos enche de alegria. Quando chega, ao meio-dia, o nome do premiado, a primeira tentação é procurar — na lista da imprensa — o nosso favorito noutro lugar. A verdade é que a literatura, felizmente, vive fora do circuito de Estocolmo. Nas últimas duas décadas fiquei contente com o prémio para Seamus Heaney, ou Derek Walcott, por exemplo, ou para Brodsky, ou para V.S. Naipaul ou para Saramago, por várias razões. Houve prémios desoladores, como aquele que nunca se percebeu por que razão foi parar às mãos de Toni Morrison (a autora de Beloved), ou o atribuído a Dario Fo. E, pelo meio, houve outros assim-assim, como o de Nadine Gordimer. Kenzaburo Oe foi outra surpresa, como tinham sido Wiszlawa Sczymborska ou Claude Simon — desconhecidos, insuspeitos, limparam a fama da Academia, que gosta de, uma vez por outra, esquecer a literatura e favorecer as «razões políticas» (às vezes as coisas colidem, como no caso de Vicente Aleixandre — mas há absurdos monumentais, e o de Churchill também anda aí, infelizmente). Eu gosto de Coetzee. Bastante — Desgraça é muito bom, e À Espera dos Bárbaros (ambos publicados pela Dom Quixote) uma metáfora quase perfeita (o que é uma arte difícil).
E, portanto, este ano escolhi Philip Roth.

EU NÃO QUERIA FALAR DE FUTEBOL, 3. Houve mails futebolísticos desde o intervalo do jogo. Nuno Morais, fora de fronteiras, comentou, e muito bem: «Escrevo-lhe porque gostaria de partilhar consigo, de um portista para outro, um certo alívio: ainda bem que foi o Futebol Clube do Porto a defrontar o Real de Madrid e não o Benfica ou o Sporting, porque, assim, a noite resume-se a uma derrota (pesada, é certo, mas uma derrota desportiva tão honrosa quanto o pode ser uma derrota), ao passo que, se o Real tivesse jogado com o Benfica ou o Sporting, os riscos seriam de humilhação histórica, talvez superior aos famosos "sete secos" infligidos pelo Celta de Vigo, uma noite que dura ainda. Não pude ver o jogo — continuo sem perceber a política de programação da RTPi; talvez a limitação seja minha —, mas ouvi alguma coisa do relato e li os comentários na imprensa de hoje. A impressão que o jogo de ontem me deixou foi de um embate entre o génio e o talento — Mozart e Salieri (este, aliás, injustamente ignorado). O Porto é uma equipa com talento, talentos, esforçada e abnegada. Tudo o que consegue é Ã custa de muito trabalho. Este não é um discurso de "violino", a exaltar e a desculpar "os coitadinhos". O Porto é uma grande equipa de pleno direito e por mérito próprio, bateu-se, mas há luxos que não pode pagar. E, por mais que eu me recuse a sobrestimar adversários, o facto é que o Real se pode permitir desleixos, porque basta o sopro de um jogador ou dois para inverter a situação. É evidente que nenhuma equipa entra em campo a pensar nisto, senão já parte derrotada, mas lá que é preciso coragem para enfrentar o génio, isso é. Se o génio leva sempre a melhor sobre o talento? Talvez não, mas ontem levou.»

Recebi também um mail do Ricardo Sousa: «Não se incomode com as bocas dos benfiquistas e sportinguistas. Amanhã [hoje] falaremos sem medo do resultado. A diferença entre "nós" e "eles" é que encaramos a derrota poucas vezes e quando acontece não nos incomoda falar dela. Até porque "nós" quando perdemos ou empatamos é contra o Real Madrid ou o Milão. "Eles" há muito tempo que não conseguem perder com esses clubes. Empatam com os La Louviere.»

João Silva excede-se em delicadeza, com boa ironia: «Aceite V. Exa os meus parabéns pelo resultado espectacular do seu querido Porto, esta noite com o Real Madrid. Para ficar ao meu gosto ainda faltaram dois golinhos!»

Isidoro de Machede, por seu lado, toma um ar sério e complacente: «Ó Viegas, convenhamos, a Margarida Rebelo Pinto [no "Livro Aberto"] e o FCP, numa só noite, é coisa para só entrar nos eixos com 3 caixas de Kompensan e mais 2 tubos de Guronsan, carago!»


Pedro L. Ferreira esgotou-se em simpatia, mas um tanto frouxo: «Foi pena não terem perdido por mais, porque aquele chapéu final do Raul devia ter entrado. Por mim só fico descansado quando vir o seu Porto eliminado e esmagado. O Porto e os portistas.» São estas coisas que nos dão alegria.

Luís Vitório andou bem: «Depois do jogo fiquei muito satisfeito. Escrevo-lhe só para dizer isso, nem sei porquê. Gosto de ler o que escreve, gosto do "Livro Aberto", gosto do Aviz, e gosto muito quando o Porto perde. Isto explica-se?»

Rui Leitão foi o mais brilhante: «Buenas noches.» Mais nada. Gostei. É assim mesmo — futebol é isso mesmo: «Vai buscar!... Toma.»

EU NÃO QUERIA FALAR SOBRE FUTEBOL, 2. O Joel Neto escreve que — passado um minuto do jogo FCP-Real — eu ainda não tinha escrito nada (a velha acusação joeliana de que eu faço luto pesado nestas circunstâncias). Quando nos encontrarmos em Alvalade, para a segunda volta e nova goleada, falaremos disso. No entanto, citando o saboroso Nietzsche & Schopenhauer, ó Joel, o que tu querias era ter perdido ontem, com o Real, não era? Contenta-te com o Malmöe.

Já agora, por falar em prendas de pós-FCP/Real, agradeço ao Rui, do Adufe, que agora mudou de endereço (está no domínio weblog.pt), a magnífica reprodução de um Goya [«directamente de Madrid»] dedicado ao Aviz. Brinquem.

EU NÃO QUERIA FALAR DE FUTEBOL, I. O Avatares de Desejo escreveu sobre a derrota do FC Porto com um tom sereno. Não há outro: «O luto de uma derrota do Porto não dura dois dias, mas apenas o tempo que decorre entre o apito derradeiro e essa ovação final de onde emana já um estranho sabor a vitória.»

Eu confesso: de vez em quando levanto-me, saio da frente da televisão; volto daí a minutos com a sensação de que o pior já passou. Mas não. O pior está para vir sempre, os minutos finais de um jogo. Na estranha «melopeia» sobre quem gosta e não gosta de futebol — e sobre o facto de os homens gostarem de futebol, e essa treta —, há momentos estranhos, supreendentes para todos: um gesto, um sinal. Lembro a forma como o FC Porto perdeu — e bem — aquele campeonato para o Sporting (o primeiro...): o gesto de Jorge Costa, de desalento, a meio do jogo com o Farense. Foi aí que perdemos o campeonato (os mais radicais dirão que foi naquele outro jogo de Campomaior...). E lembro aquele golo de Capucho, contra o Gil Vicente, golo genial, já o campeonato perdido (desta vez para o Boavista, creio) — o Joel Neto escreveu magistralmente sobre esse golo. São momentos de revelação: o que se lembra. Lembro-me daquele gesto (eu gostava de ter visto as mãos de Yashin) de Raí, um dos jogadores brasileiros que mais gostei de ver jogar, quando é substituído por Zagallo, a meio de um Brasil-Argentina no Maracanã — por Edmundo, o Animal (a vergonha do Vasco, acrescento): a sua elegância, o traço de um carácter, o olhar poisado sobre toda a superfície onde a bola poderia aterrar depois de marcado o seu voo. O olhar de Raí, naquele instante, foi o olhar de todas as derrotas, nunca pude esquecê-lo, ainda por cima substituído por um selvagem em campo. Mas há derrotas fantásticas, saborosas. A da Inglaterra frente à Argentina no Mundial de França, com o olhar surpreendido de Seaman — como era possível que aqueles tipos tivessem ganho o jogo? Aqueles tipos que nem inglês falavam.

Outubro 01, 2003

PATRÍCIA MELO. Para quem nunca leu Patrícia Melo, acho que tanto eu como o Jorge Marmelo podemos dar o nosso nome. Os livros de Patrícia são retratos violentos sobre a violência e a amargura; e escritos pela mão de uma mulher muito inteligente (edição brasileira de todos eles na Companhia das Letras; edição portuguesa na Campo das Letras). O mais recente, Valsa Negra (Companhia das Letras, 242 págs.), ultrapassa tudo isso. Um «director de orquestra», um maestro (Patrícia casou recentemente com um…) vive com Marie, muito mais nova, depois de um casamento de vinta anos com Teresa, de quem tem uma filha, Eduarda. Ela, Marie, é judia. Ele é goy, gentio. Moram em São Paulo. Ele tem uma obsessão: ser traído. Traído por Marie com outro homem (um violinista, um trompete, um violoncelista, um maestro visitante), traído por Marie com o seu passado, mas, sobretudo, traído por Marie com o judaísmo. Marie guarda recortes de jornais sobre Israel e sublinha livros sobre judaísmo; ele vigia essa atenção, tem ciúmes dessa atenção; em cada citação sublinhada por Marie, ele vê uma traição e uma acusação (aos não-judeus, aos goyim. O livro está cheio disso: de traição, ressentimento, sexo (bastante, muito), suicídio. Do princípio ao fim do livro, o maestro destrói aos poucos todo o seu mundo e o mundo dos que o cercam ou dos que o tocaram alguma vez: mulheres, músicos, familiares, simples conhecidos. É uma história angustiante de auto-destruição sobre o amor e o ódio, que se vão transformando, lentamente, em sentimentos bizarros. Um dos livros mais negros que li nos últimos tempos. Mas até nisso Patrícia Melo é talentosa. Ao fim destas 240 páginas apetece fechar o livro, fechá-lo mesmo — mas não esquecer. É uma sensação estranha, esta, de recusá-lo e de gostar de o ter lido (está muito mais próximo de Acqua Toffana). E voltamos a Elogio da Mentira, O Matador ou Inferno. Nos seus retratos de violência, são muito menos violentos do que este Valsa Negra.

RAIO DE COISA, O FUTEBOL. OUTRA VEZ. Ah, mas o excelente Sem Caracteres também se mete comigo e antevê um silêncio enlutado a propósito do FC Porto-Real Madrid desta noite. Caro João: o Aviz não ficará mudo, nem pensar. Nem que seja para falar do fabuloso empate do Benfica na Bélgica com aquela equipa... Como é que se chama?

RELIGIÃO, PARTE DOIS. Nas últimas semanas a blogosfera tocou no assunto «religião», em resposta a um repto lançado, entre outros, pelo Janela para o Rio. O tema que suscitou mais interesse foi, infelizmente, o da relação entre «religião & política», como se aí se esgotasse a ligação entre a religião e o mais imediato de nós (além de traduzir, evidentemente, uma certa fixação de muitos blogs: como se todo o debate ideológico tivesse de ser tão imediato como isso), e como se todas as opções fossem «clubísticas». O «regresso das religiões» não é coisa nova, mas foi mais escutado quando se falou da «constituição europeia» — e talvez venha daí o tom de «política imediata» neste debate sobre «religião». Escrevi na altura: «Eu não gosto especialmente de falar sobre Deus — é um problema entre mim e o deserto e muitas vezes é difícil explicar essa relação sem identidade a quem não está disposto a mudar de dicionário. Essa linguagem ainda não está inventada e o que não tem nome não existe, já se sabe (os leitores de Wittgenstein escusam de comentar). Mas quando se fala de um Deus europeu o que está em causa não é Deus mas sim a Europa.»
O que me assusta nas «democracias cristãs» e nesses apelos do dr. Portas à «matriz cristã da Europa» (mas aceitaria a discussão) é a necessidade de ter Deus «do seu lado». É tão perigoso, isso. Tão caricato, também, tão falso. Nenhuma entidade política pode reivindicar essa ligação. Incomoda-me esse excesso de indignação por causa da «ausência de Deus»; os arcebispos e os acólitos de igreja matriz não são de confiança — esse catolicismo fácil, cheio de tradição e de peregrinações não me comove um instante (mas ninguém tem de ser como eu). O problema é confundir-se Deus com a «tradição de Deus» na Europa. Essa tradição não foi boa, nunca foi boa e lembra as investidas do padre Carreira das Neves quase pré-conciliar, bradando contra os judeus e os deicidas. O Deus desta Europa desapareceu há muito.
Lamentavelmente — e volto a insistir em coisas que têm sido escritas nos dois blogs onde o «sentimento religioso» está mais presente, o Crónicas Matinais e o Voz do Deserto, por exemplo —, falou-se pouco de religião e escreveu-se mais sobre Bush e essas desinências.
Naturalmente que a experiência religiosa não tem de ser debatida sempre na mesma linguagem — mas isso só acrescenta mais argumentos em favor do silêncio. Como se tivéssemos gasto muito o nome de Deus — que devia ser um pássaro na nossa gramática, uma palavra a menos quando estamos a falar. Só se devia dizer o nome de Deus em silêncio absoluto.

FUTEBOL, AI DE MIM [MAIS UMA INTERRUPÇÃO]. O Joel Neto, que tem um sentido de humor muito sportinguista, avisa a blogosfera, mais uma vez: atenção que «o Aviz não tem posts nos dois dias a seguir às derrotas dos dragões. Leia agora ou volte sábado». Ou seja: caso o FC Porto perdesse hoje com o Real, eu estaria dois dias de luto carregado. Ora, o Joel escreveu a mesma coisa na véspera do FC Porto-Sporting (lembram-se da série joeliana sob o título «vai buscar!», certamente), e foi o que se viu. Não sei se o FC Porto vai perder com o Real do Prof. Pardal, mas escreverei na mesma — e não será para recordar o Sporting nas Antas ou em Moreira de Cónegos. Espero que a relva cresça em Alvalade, e já não é mau.