Fevereiro 29, 2004

AS NUVENS. O argentino Juan José Saer escreveu há anos um livro delicioso, As Nuvens (edição Caminho): é o relato de um homem que funda um hospício para loucos no fim do pampa. A história desenrola-se quando percorrem a Argentina desse quase final do século XIX recolhendo loucos (que lhes eram entregues pelas suas famílias) para levar até ao hospital. Cada um deles é um caso, rico ou pobre, «ligeiramente louco» ou «totalmente louco», homem ou mulher, e cada um deles vive apenas por si, dentro de si. Há, pelo meio, uns que não são loucos mas se sentem mais protegidos no meio deles. Só se unem quando um incêndio brutal os ameaça, finalmente. O nosso pampa não está em chamas, mas só porque chove abundantemente.

DOMINGO. [Actualizado, domingo, 22:54] Esta «tendência crescente», desde que se recuperou definitivamente a patrulha ideológica na blogosfera entre esquerda e direita, está a dar os seus frutos. O primeiro deles é a surdez. Uma boa quantidade de gente vai ficando surda. O segundo é o autismo. O terceiro é, naturalmente, e com tempo, apenas um problema de dioptrias.
• Não, não me refiro ao Mel Gibson nem ao Médio Oriente.

Fevereiro 27, 2004

TONINO GUERRA. FRAGMENTO 2. «Quando no outono/ as árvores estavam nuas/ uma tarde a nuvem de pássaros/ exaustos/ poisou sobre os ramos./ Pareciam ter regressado as folhas/ baloiçando ao vento.»

TONINO GUERRA. FRAGMENTO 1. «As estradas, que calafetadas com pedras/ novas fazia escorregar,/ são agora suaves tapetes de erva sob nossos passos./ Quando anoitece sentamo-nos no chão/ e afagamos a erva das fendas,/ rara, como os cabelos de uma cabeça anciã.» [O Mel, tradução de Mário Rui Oliveira, Assírio & Alvim.]

AS MANHÃS DE LONGE. As manhãs mais perfeitas estão sempre do outro lado do mundo, com os seus ruídos espantosos, calor, sombras que se erguem devagar, árvores, pão, perfume. Quando as coisas perdem o nome à minha volta lembro-me disso: das árvores, do pão, do perfume. Coisas pequenas. Não querem dizer nada para lá do que são, infantis. Reconheço, aos poucos, que são essas as coisas que não se podem perder.

MARRETADA. Isto, provavelmente, não se faz: não lhes dar os parabéns. É que um ano de vida merece lembrar-se.

O FIM DO CARNAVAL LUSITANO, FINALMENTE. O Carnaval português sempre me afligiu. Lembro-me dele quando ainda só era Entrudo e não dispúnhamos daquelas raparigas da Mealhada a dançar na rua, debaixo de chuva, abrigadas pelos seus simpáticos biquinis. Essa é a primeira imagem que me assalta: o frio, o desconsolo meteorológico, a desadequação climática. Isso e os seus desfiles, em carros alegóricos montados em cima de tractores. E dos fatos de má qualidade, de brilho barato, cintilante nos domingos de Fevereiro, escarlates. Tinha pena das raparigas. Também me penalizava pelos rapazes, da cidade ou da província, muito machões durante o ano, mas que no Carnaval se mascaravam de meretrizes ou de tias velhas. Mas, insisto, o pior era o frio de Fevereiro, os chuviscos a meio da tarde, o granizo nas ruas de Ovar, de Cantanhede ou Olhão. Um resto de misericórdia vinha do fundo da consciência pedir protecção para os desfiles.
Aos desfiles, propriamente ditos, vi-os sempre pela televisão e bastou-me: umas raparigas sem o sentido das proporções dançavam muito mal o samba, agitavam bandeirinhas, sorriam, enregeladas, com peças de tule cobrindo uns corpos muito brancos que ainda não tinham feito a dieta habitual antes da época balnear. O corpo das portuguesas, neste domínio, é um campo de sacrifícios: durante o ano alimenta-se bem e corajosamente; entre Abril e Maio começa a penar e a penitenciar-se, preparando-se para a exposição solar do Verão. É um mundo de desgraças. Só o Carnaval, com as suas peças de tule com penduricalhos de brilhantes falsos em cima, permite entrever as carnes esbranquiçadas que hão-de estar mais passadas no S. João. As figuras, dos «carros alegóricos», são o bombo da festa tradicional – políticos da televisão, caricaturas sofríveis, mal pintadas, ditos de gosto duvidoso, misturando a tradição popular da província com a piada do Parque Mayer. Tirando o dr. Alberto João Jardim, saltitando na Avenida Arriaga, no Funchal, os desfiles são pobres. Pobres e cheios de frio.
Depois, há umas actrizes de telenovela portuguesa e os seus companheiros de ofício, que vão também aperaltados no alto dos carros (que lembram, a milhas, os «trios eléctricos» de Salvador, eufóricos e encalorados): também aí é uma desilusão. Sob os tules, vêm mais panos para esconder a «beleza tradicional portuguesa». As actrizes de telenovela brasileira chegaram entretanto para animar um pouco a paisagem: sorriem muito, recebem o cheque, levantam os braços, cumprem a sua função.
Fico sempre espantado com as notícias das televisões, que falam dos «foliões» que aguardam a passagem dos desfiles: e as imagens dão conta de umas famílias apinhadas nos passeios, com os miúdos encavalitados vendo passar o cortejo de horrores. Isto, claro, sem falar da música permanente de «mamãe eu quero, eu quero mamar» que todas as discotecas do Algarve passam aos berros para que comboios de «foliões», organizados com a espontaneidade de uma missa em latim, se meneiem e transpirem adequadamente. Não sei. Não sei. Mesmo para Portugal, é muito horror junto. [JN]

AINDA OS MACINTOSH. Os leitores do Aviz que continuam a ter problemas de visualização do site usando o Internet Explorer em Macintosh, podem recorrer à «versão brasileira» do blog. Os restantes browsers (Mozilla, Safari, Opera ou Netscape) não apresentam esses problemas de leitura. Este não é, definitivamente um «Bill Gates-friendly blog».

GIBSON & ETC, FIM. Recomendo um site que pode ser útil na leitura deste problema, o Jewish-Christian Relations, nomeadamente este artigo. Pode consultar-se a lista de fontes para ler o filme, no The Christian Scholars Group on Christian-Jewish Relations, bem como o texto «Concerns and Recommendations in Anticipation of the Forthcoming Film», elaborado pelo Consultative Panel on Lutheran-Jewish Relations (Department for Ecumenical Affairs ) da Evangelical Lutheran Church in America, de que uma das principais scholars, Carol Schersten LaHurd, escreve um interessante artigo noutro local. Pode ler-se bastante material no site do National Council of Churches, EUA. Já agora, há um interessante texto de David Gibson no The New York Times sobre a imagem de Cristo («What Did Jesus Really Look Like?»). A revista Tikkun publicou um texto de Michael Lerner onde se toca num ponto-chave, a meu ver: «Mel Gibson unlocked the secret of why Americans have never confronted anti-Semitism in the way that we did with the other great systems of hatred (racism, sexism, homophobia) when he told a national t.v. audience on February 16 that "the Jews' real complaint isn't with my film (The Passion) but with the Gospels". Few Christians today know the history of anti-Semitism and the way that the Passion stories were central to rekindling hatred of Jews from generation to generation. Many are embracing Gibson's movie and not understanding why Jews seem to be so threatened. Gibson knows that for many Americans it is simply unimaginable to question the Gospels.» Ou seja, trata-se de perceber «the attempt to revive Christian enthusiasm around the part of the story that is focused on cruelty and pain». E pronto. Fim. Acabou. Não estou para aturá-los mais.

Nota a encerrar: Meu caríssimo Luís: eu sei que a carta que transcrevi no Aviz era deplorável. Mas há uma altura em que não temos mais paciência para o silêncio absoluto, aquela espécie de coisa mal guardada que se vale do nosso pudor, da nossa vergonha e da nossa boa-educação. Tal como alguns amigos, também se pode perder a calma. Aliás, estas coisas começam a ultrapassar o domínio do aceitável. Falo só da ignorância, da má-fé, do abjecto. Podíamos não «perder tempo» com isso, é verdade; mas acho que foi por «isso» que a intolerância se instalou muitas vezes no nosso mundo. A intolerância, como se sabe, não perde tempo. Está sempre a ganhar espaço.

GIBSON, 2. Carlos Pereira da Cruz escreve, por mail, sobre estas mesmas questões: «Ainda não vi o filme de Mel Gibson; do que já o vi relevo uma constante: a violência. […] Para os romanos a crucificação de Jesus não foi nada de especial, foi “business as usual”: a crucificação era uma pena comum no Império Romano, a menos que os romanos que em particular crucificaram Jesus fossem sádicos. […] Não creio que tenham tratado Jesus nem melhor nem pior. Carl Sagan detestava filmes de ficção científica porque não se conseguia abstrair dos erros que observava nesses filmes (por exemplo: uma explosão no espaço não emite som, dado que não existem partículas que vibrem com a libertação de energia). Também tenho cada vez menos pachorra para os filmes sobre a vida de Cristo. Esses filmes normalmente são feitos com base num dos Evangelhos, e seguem os Evangelhos à letra. Tantos milhões de dólares gastos, e nunca ninguém disse aos realizadores que os Evangelhos não são um relato histórico. […] Ao longo de todo o texto do Evangelho, ou Deus, ou os demónios dizem “Tu és o Filho de Deus”; o primeiro e único humano a dizer estas palavras foi um oficial do exército romano. Que conveniente. Eram os romanos das primeiras conversões que diziam nas suas orações que Jesus era o Filho de Deus. Por exemplo, no Evangelho de S. João, aquando da ressurreição de Lázaro, Jesus diz “Eu sou a ressurreição e a vida.” Na verdade, é a comunidade joanina reunida que, orando, ao ler o texto, diz que Jesus é a ressurreição e a vida. A minha visão de Jesus aponta para um homem muito menos pomposo que o ilustrado neste Evangelho. Por exemplo, no Evangelho de S. Mateus, escrito para judeus da seita que seguia Jesus, podemos encontrar uma passagem em que Jesus diz que vem trazer a divisão, semear a discórdia, separar irmão de irmão, pai de filho. Porquê? Os seguidores de Jesus eram uma de muitas seitas judaicas, que cerca do ano 70 da nossa era foram postas perante um dilema: ou deixavam os ensinamentos de Jesus, ou deixavam de ser considerados judeus. Sou tentado a acreditar que a verdadeira razão deste ultimato não eram os ensinamentos de Jesus de per si, mas o facto de a seita que seguia Jesus aceitar no seu seio antigos pagãos e não obrigá-los a seguir práticas básicas do judaísmo. Perante este ultimato, a tentação de voltar ao seio da grande corrente judaica era atraente, daí a exortação escrita acima. Isto leva-me a outros pensamentos curiosos. Os judeus do Antigo Testamento não creio que fossem monoteístas; ou seja, eles acreditavam no seu Deus, mas não como o único Deus. Sim como o Deus mais poderoso de todos. Julgo que só ao longo dos séculos foi amadurecendo a ideia do monoteísmo, um único Deus para todos os povos. Muita da discussão resulta de em boa verdade pouca gente saber que existe uma coisa chamada exegese cristã, de pouca gente ser ensinada a pensar a fé, muita gente ser ensinada a repetir fórmulas e repetir rituais.»

GIBSON. A matéria relacionada com o filme de Mel Gibson tem vindo a ser tratada com a ponderação necessária em blogs como o Rua da Judiaria, Bengelsdorf, A Bordo, Guia dos Perplexos, Rui Almeida, Voz do Deserto, Razão das Coisas, Cibertúlia, Mar Salgado, Voz do Deserto, ou o Respública, entre outros que já se manifestaram sobre o filme — alguns deles respondendo ao desafio lançado pelo Nuno Guerreiro. Acontece que estamos a reagir ainda antes de ver o filme, o que me parece natural, vistas as imagens da televisão e os recortes dos jornais.
Verei o filme (só depois de ver o Woody Allen, que falhei como mau cinéfilo que sou), naturalmente, por curiosidade arqueológica. Prevejo que não se trata de um filme sobre a fé mas sobre a encenação da morte e a atribuição da culpa. Mais um, banal, no caminho de Zefirelli. Much Ado About Nothing.

Fevereiro 25, 2004

BOLA. Sim. Foi «um banho de bola». Deu gosto.

ANTI-SEMITISMO, 2. Escreve, por mail, o leitor R.M.P.P.: «Só a palavra anti-semitismo já revela que os judeus consideram-se de facto o Povo Eleito pois, que eu saiba, os árabes também são semitas e essa expressão nunca é utilizada quando alguém profere declarações anti-árabe. Quanto às palavras de Hutton Gibson, apesar de não ser cristão concordo com grande parte do que ele disse, o senhor não prima pela polidez, mas lá que lhes toca na ferida lá isso toca. Esta campanha contra o filme de Mel Gibson para quem ainda tivesse dúvidas elas foram totalmente dissipadas, os judeus americanos controlam toda a vida social naquele país e ai de quem ousar sair um pouco fora do controle do Ogre judaico, essa gente enoja-me, sinceramente. Não, não ponho todos os judeus no mesmo saco, tenho aliás grande admiração e respeito por vários judeus desde Leonard Cohen a Woody Allen, de Gilad Atzmon a Norman Finkelstein mas estes guardiões do politicamente correcto e do mito dos seis milhões, já não há paciência, o holoconto já chateia.»

Sem comentários.

POR FALAR EM GIBSON. Por falar em Nuno Guerreiro, decerto que já leu as interessantes declarações de Hutton Gibson, o pai de Mel Gibson registadas no NY Daily News. E o filme ainda está por aí...

ANTI-SEMITISMO. O artigo de Vital Moreira no Público de hoje (ontem, aliás, terça-feira) sobre o anti-semitismo é um texto interessante e, é preciso dizê-lo, constitui uma tentativa de dizer coisas claras sobre o assunto, tentanto separar anti-sionismo, anti-semitismo e posições anti-Israel. Nesse sentido, é um artigo honesto pelo que ele quer dizer. Não mais do que isso, o que já é muito bom. É bom que reconheça, por exemplo, que «a rejeição da política palestiniana de Israel pode ser desequilibrada, excessiva ou mesmo injusta» (sublinhados meus), «sem ser anti-semita ou antijudaica»; e que se afirme que «tão importante como erradicar o cancro do anti-semitismo é extirpar o tumor da guerra israelo-palestiniana». Estamos no mesmo campo. Já aqui escrevi sobre a diferença entre anti-semitismo e anti-Sharon (embora não veja muitas diferenças entre anti-Israel e anti-semitismo).
«Pode-se ser anti-Sharon sem se ser anti-israelita, tal como se pode ser anti-Bush sem denunciar nenhum antiamericanismo», escreve Vital Moreira. Mas há uma coisa que não se pode fazer (não será o caso de Vital Moreira, evidentemente): é ler a história de Israel nos últimos 54 anos a partir de um só lado ou aceitando as banalidades da propaganda, do anti-sionismo e daquilo que hoje é «a opinião maioritária». Voltarei ao assunto durante esta semana, mas recomendo entretanto duas coisas: 1) que estejam atentos ao blog do Nuno Guerreiro; 2) que leiam o artigo de Miriam Greenspan numa das recentes edições da Tikkun (para que o Nuno, aliás, chama a atenção).

Fevereiro 24, 2004

AMOR E ÓCIO. O Rui Baptista, que era um dos suspeitos do costume, regressou à blogosfera com o Amor & Ócio. Começa por evocar Rubem Fonseca, o que é bom sinal, como sempre (e usa Mac, outro bom sinal).

Fevereiro 23, 2004

L'IMPORTANCE DES RÉFÉRENCES. O Le Monde publicou um texto sobre o caso Casa Pia e Portugal. Medeiros Ferreira (os seus textos do Diário de Notícias têm sido dos mais ponderados sobre o assunto) fala dessa descoberta assustadora: a de que, debaixo do verniz do País que viveu Expo98 «e a sua arquitectura futurista», estava um outro País, atrasado – «Et ça fait mal!» Daí também se explica a aliança entre o populismo e a televisão. «Graças ao pequeno ecrã», diz Medeiros Ferreira, «assistimos a uma verdadeira catarse no País.» Mas o Le Monde também ouviu Manuel Alegre, que se manifesta contra a ideia de «catarse». É mais um «linchamento mediático»: «Quand je pense que nous avions fait une révolution exemplaire, tout cela pour tomber à nouveau dans la culture du doute!»; «La justice, ce n’est pas faire le procès des institutions. Un pays a besoin de références.» Ora esse é que é um problema: as referências passavam pela tranquilidade do silêncio em relação à Casa Pia e à honorabilidade intocável e insuspeita de todo o sistema politico e dos média. Isso já não é possível. Ao contrário do que se diz no artigo, essa é, precisamente, vantagem de trinta anos de democracia, e não a destruição dessa democracia. Os mais cépticos podem perguntar-se se o País precisa mesmo destas referências, mas talvez seja excesso de cepticismo e de má-fé; acho é que as referências do País já são outras, para o pior e para o melhor, nem são as instituições que estão a ser atacadas. Concordo que «les références» são importantes, mas lembro-me sempre dos senadores italianos nestas circunstâncias.

PHILIP ROTH. [Actualizado, segunda-feira 15:47] O Carlos, do Contra-a-Corrente, deu com esta coisa espantosa, como conta no seu blog: uma livraria de Évora tinha «escondidos os cerca de vinte exemplares de A Mancha Humana», de Philip Roth (edição Dom Quixote) numa das secções «dedicadas aos ensaios, à História, à política, etc.». A Mancha Humana [The Human Stain] está agora nos cinemas [com Anthony Hopkins, Nicole Kidman, Ed Harris, Gary Sinise, etc.]; não vi. Os seus livros são guias, instrumentos, romances diabolicamente perfeitos, onde a maior dor tem a marca de uma doçura fatal, e onde os personagens nunca são totalmente bons, totalmente maus; depois de O Teatro de Sabbath, Roth é definitivamente o grande escritor americano de hoje. Espero, caro Carlos, que essa não seja a livraria dos nossos amigos de Évora...

P.S. - Ah. O Carlos informa que não se trata, evidentemente, da livraria dos nossos amigos de Évora, a Som das Letras (que convido a visitar) — mas sim da livraria da Editorial Notícias.

IM ABENDROT. Das Quatro Últimas Canções, de R. Strauss. (Herman Hesse, Joseph von Eichendorff): «Em torno de nós os vales inclinam-se,/ O céu escurece já,/ Só duas cotovias se elevam,/ Sonhadoras, no ar perfumado.» Tradução de Rui Vieira Nery {«Rings sich die Täler neigen,/ es dunkelt schon die Luft,/ zwei Lerchen nur noch steigen/ nachträumend in den Duft.»}

Fevereiro 22, 2004

DOMINGO EM JERUSALÉM. As manhãs em Jerusalém são mornas, sobretudo ao domingo, o dia em que todas as religiões se misturam em ritmos diferentes. Esplanadas, cafés, a Ben Yeoudha cheia de gente que aguarda a hora de abrirem as lojas, os que aproveitam as livrarias às primeiras horas (tal como crepúsculo, quando os livros são mais bonitos), os que tomam o pequeno-almoço nos cafés de Jaffa Road, aqueles que andam pelas ruas como um israelita normal (depressa, muito depressa, como se tivessem um destino, e não precisam de andar com as mãos atrás das costas). Tudo, tudo, excepto os autocarros que vão para Beit Hakerem, o cheiro das explosões em Liberty Bell Park, o ruído das ambulâncias da Magen David Adom (não da Cruz Vermelha) nas encostas do Hadassah Hospital, Ein Karem. Vale a pena dizer mais?

A NOITE, O QUE É?, 41. Por mais que eu desvie os olhos, a noite aproxima-se, vem, parte. É um problema de fusos horários, de música, de amnésia ou de memória. Isto só acontece num certo momento, como um raio verde, um fragmento. Durante a noite enumeram-se coisas sem sentido. Houve uma manhã em que fomos mudar a vida inteira, entrando pelas repartições, tomando decisões, isso deve acontecer sempre de manhã; a noite reserva-se para isto mesmo, imagens que ficam presas às pontas dos dedos. Por mais que eu desvie os olhos, é isso que vejo, evito dormir para não deixar de ver.

Fevereiro 21, 2004

MINORITY REPORT. Acho que, ao transcrever um texto do Prosa Caótica, já dei a minha opinião sobre «a crise da blogosfera» enunciada por Pacheco Pereira. É um debate em que não quero entrar, até porque propriamente não existe debate: a «blogosfera» é um domínio onde se escreve até ao infinito, onde se discorre praticamente sem lei. Essa é uma das suas virtudes. Concordo com Pacheco Pereira quando ele escreve que «o meio é ácido, mais do que polémico, e atrai os ácidos» (e que há mais hostilidade – mas isso não é da «blogosfera», é «disto tudo»); já o tinha escrito aqui há meses, quando falei de «ressentimento». Houve quem escrevesse que o Aviz queria apagar as discussões ou amenizar os debates, ou praticar uma «censura em nome da moderação». Longe disso, aqui ninguém pode censurar ninguém: o que me importava era o tom. Por isso escrevi nessa altura um texto sobre a «patrulha ideológica», não para lhe negar a legitimidade, mas para acentuar um novo modo de funcionamento dos blogs depois da estabilização da «blogosfera». O primeiro sinal, antigo, decerto, era o da contagem de espingardas entre esquerda e direita, mas isso já se esperava e não era despropositado, atendendo, aliás, à experiência de dois blogues fundadores, o Coluna Infame e o Blog de Esquerda.
Até certo ponto compreende-se essa lógica, dado que grande parte dos blogs políticos (não os blogs sobre política) mais populares são «sítios de resposta», e alguns de vigilância e de militância. São, sem dúvida, os blogs que têm uma agenda política (ou que a transportam dos jornais) e que se actualizam ao minuto diante da actualização das notícias. Acho isso normal, embora não seja nesses que o debate político é mais interessante; limitam-se a seguir a agenda ou a ter opinião sobre o que tem mais «audiência». Pelo caminho, contam espingardas e deitam um olho ao índice Technorati. Acho bem, «é assim que as coisas se fazem»; mesmo que não interesse entrar no jogo, o jogo é assim e estamos lá todos. Por isso, não há crise na «blogosfera»: ela está, apenas, «a entrar nos eixos», a ficar mais «normalizada» (às vezes apenas mais previsível). Uns fecham as janelas, partem, vão escrever noutro lado, ninguém pode criticá-los. Outros, mantêm o seu tempo destinado a escrever quase diariamente. Outros chegam agora. Outros ocupam o espaço que está aí disponível. Outros festejam-se. Nada disto é tão espantoso assim. Já estava escrito.
Ser parte da maioria é que não me encanta muito. Por isso acho bem o lema de um dos mais recentes blogs a entrar na net, o Desorientados: «Nós somos só dois. Eles são muitos.» Minority report, exactamente.

LIVROS PERDIDOS, 5. Há um daqueles romances-comédia de David Lodge, O Mundo é Pequeno (Gradiva), em que, no auge do delírio, alguém se propõe escrever uma tese sobre «as influências de T.S. Eliot em Shakespeare». Não é assim tão absurdo, reconheço hoje ao ler As Armas e os Varões, de Tabajara Ruas (L&PM, edição brasileira, um épico sobre as guerras do Rio Grande do Sul), além de O Fascínio, A Região Submersa ou Netto Perde a Sua Alma (todos na Âmbar, em Portugal). De Tabajara sou levado a recordar Erico Verissimo, sobretudo Olhai os Lírios do Campo e O Tempo e o Vento. São dois livros fundadores do romance brasileiro fora do eixo Rio-São Paulo ou do universo nordestino na altura em que tudo vinha daí. Olhai os Lírios do Campo é uma das marcas do cânone brasileiro, hoje em dia, um texto moderno. Tabajara Ruas fala da ditadura brasileira em A Região Submersa, durante os anos de chumbo em que esteve exilado na Argentina ou de passagem pelo Uruguai (e, depois, por Lisboa, aliás), e do Rio Grande do Sul de hoje em O Fascínio, mas tudo me sugere Olhai os Lírios do Campo ou, pelo menos, aqueles cenários de Erico Verissimo, as paisagens do Brasil onde neva, as suas pequenas florestas, a linguagem do sul, do pampa, as cidades europeias do Atlântico Sul, essa pequena Antárctica brasileira. Ou seja, os livros de Verissimo explicam-se-me hoje melhor depois de ler Tabajara Ruas.

EMANUEL FÉLIX, 2. Nem sempre temos os livros à mão nos momentos certos, mas andava à procura deste poema de Emanuel Féix há uma semana exacta. Descubro-o agora. O Eugénio Lisboa, veio fascinado por ele depois de uma visita aos Açores, e deu-mo a ler pela primeira vez (é de Habitação das Chuvas, de 1997):

«Como eu amei as raparigas lá de casa/ discretas fabricantes da penumbra/ guardavam o meu sono como se guardassem/ o meu sonho/ repetiam comigo as primeiras palavras/ como se repetissem os meus versos/ povoavam o silêncio da casa/ anulando o chão os pés as portas por onde/ saíam/ deixando sempre um rastro de hortelã/ traziam a manhã/ cada manhã/ o cheiro do pão fresco da humidade da terra/ do leite acabado de/ ordenhar// (se voltassem a passar todas juntas agora/ veríeis como ficava no ar o odor/ doce e materno/ das manadas quando passam)/ aproximavam-se as raparigas lá de casa/ e eu escutava a inquieta maresia/ dos seus corpos/ umas vezes duros e frios como seixos/ outras vezes tépidos como o interior dos frutos/ no Outono/ penteavam-me/ e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas/ na primavera/ não me lembro da cor dos olhos quando olhava/ os olhos das raparigas lá de casa/ mas sei que era neles que se acendia/ o sol/ ou se agitava a superfície dos lagos/ do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas/ as raparigas lá de casa/ que tinham namorados e com eles/ traíam/ a nossa indefinível cumplicidade/ eu perdoava sempre e ainda agora perdoo/ às raparigas lá de casa/ porque sabia e sei que apenas o faziam/ por ser esse o lado mau/ de sua inexplicável bondade/ o vício da virtude da sua imensa ternura/ da ternura inefável do meu primeiro amor/ do meu amor pelas raparigas lá de casa.»

Fevereiro 20, 2004

CHINA, 2. [Actualizado, sábado 17:51] O Paulo Gorjão comenta o meu texto sobre a China & Guterres e invoca o princípio da realidade para me chamar à razão em matéria de política internacional; a hipocrisia faz parte do jogo. Concerteza; diz o Paulo: «Na política internacional, tal como na vida, as questões não são preto e branco. O mais provável é que hajam inúmeros tons de cinzento. Por muito que isso nos custe e não nos orgulhe particularmente.» Ora aí está. Não nos orgulha particularmente, de facto, mas a realpolitik faz parte do nosso dicionário e da nossa memória. Até aí tudo bem. A questão está, no entanto, num pequeno pormenor: nem todos nós somos diplomatas ou especialistas em estratégia; muitas vezes limitamo-nos a ter opinião em função da nossa memória do século recente e daquilo que ele ensinou em matéria de pactos, convergências, conflitos, máscaras. Nesse aspecto, a nossa memória do século não é particularmente festiva; algumas indignidades, estamos agora a descobri-las; alguns silêncios pagam-se caro mais tarde. Fazia parte da realpolitik, durante os anos da guerra fria, manter um discreto silêncio a seguir à ocupação da Checoslováquia, ou ignorar a natureza do regime militar argentino? Eu sei que os contextos são diferentes, que as circunstâncias exigem respostas diferentes, mas a China exigiu sempre respostas diferentes desde os anos sessenta (até porque a China faz o que bem entende), e os mortos são os mesmos. Ah, não peço uma invasão da China. Peço uma condenação clara; coisa simples. Lamentei que se realizassem lá os Jogos Olímpicos só para satisfazer a necessidade de fundos do COI na época Samaranch; coisa simples. Peço que se inventariem os números das sucessivas barbáries e que «a comunidade internacional» interrompa os negócios durante uns minutos para estudar a questão do Tibete. Pedi o mesmo noutras circunstâncias e em relação a outras frentes.
A lengalenga sobre a «nova ordem internacional» e «os desafios da globalização», dou de barato; toda a gente lhe é indiferente porque se repete sempre com a mesma intensidade e a mesma falta de senso. Já me parece inteiramente outra coisa que a IS, que Guterres representava em Pequim, permita que a China se sirva das declarações sobre «convergência de opinião» em matéria de Nações Unidas, Conselho de Segurança, para impedir que a comunidade internacional (ou as próprias Nações Unidas) aprecie as violações de direitos humanos e as prisões políticas na China. Terei todo o gosto em apreciar a condenação dessas violações de direitos humanos pela boca de António Guterres, como sei que ele faria, evidentemente. Nunca isso esteve em questão.
Recordo, aliás, um episódio, que me foi lembrado por um amigo moçambicano — J. —, em idêntica ida de Guterres a Moçambique enquanto presidente da IS. Escreve o meu correspondente por email: «A reunião da IS coincidiu exactamente com um momento único na história moçambicana pós-guerra. A propósito de uma tentativa do governo em desarmar a pequena guarda de Dhlakama, perfeitamente extemporânea, a Renamo convocou manifestações de repúdio em várias cidades e vilas. Pediu autorização para tal, como manda a lei. No dia das manifestações a polícia abriu fogo em várias cidades (11?) e noutras carregou. Morreram algumas dezenas de pessoas. Outras foram presas — os 80 mortos na cadeia de Montepuez foram alguns desses presos. […] O facto de ter sido aberto fogo em tanto sítio diferente indica ordens superiores e não um mero incidente localizado. No dia dos disparos, a IS estava reunida em Maputo.» Eu não teria pedido a Guterres que, de Maputo, comentasse os «incidentes» ou reagisse. Mas, sabendo nós «como essas coisas [com a imprensa] se fazem», como foi possível que nenhum delegado da IS tivesse contado a história? Sei o que Guterres e a IS pensam sobre essa chacina; nunca isso esteve em causa. Dir-me-á o Paulo que a IS estava comprometida e tinha de manter o seu silêncio. É o que me incomoda na «questão chinesa».

A SITUAÇÃO DA BLOGOSFERA. ALGUNS CONSIDERANDOS. [E DEPOIS ADORMEÇAM EM PAZ.] Um dos blogs a que recorro com frequência é o brasileiro Prosa Caótica. Agora, que se discute de novo o sentido da blogosfera, lembro um seu texto recente:

«Depois do café de uma manhã das comuns entrei no meu quarto. Fechei a porta. Ninguém me ouviria. Comecei a rasgar todos os meus livros. Primeiro os contemporâneos, depois os clássicos. Não tinha ninguém ali para me impedir. Eu não chorava. Minhas mãos trabalhavam rápido. Paul Bowles, Thomas Bernhard, Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Maiakovski, dicionários, glossários, antologias, revistas culturais, jornais, toda a Biblioteca Nacional e Drummond. Eu não havia bebido, sem frontal, sem referência, sem vontade de morrer, sem filosofia. A literatura é mercado. A arte é mercado. E uma idiota como eu acha que a vida é isso. Aparecer escrevendo. Vou parar de escrever, vou acabar com este blog, vou virar pedinte nas ruas de Copacabana, carregando um saco dos livros que rasguei. Eu nem deveria estar escrevendo isso aqui, vocês vão achar que é mais um post. Vou vender letras para sobreviver. Livros rasgados. Me dê um real aí que eu te dou um pedaço de livro. Dessas bostas que eu leio todo dia, por prazer e para sobreviver. Dessas bostas que as editoras compram e publicam. Destas bostas de editoras. Grandes e pequenas. Todas a mesma merda. Só muda o nome. Todas nepotistas, todas tribalistas. Se você não é do comando, tá fora. Sei, não precisa me dizer, ressentida? Não, realista. Leio leio os novos, bonitos, vazios, leio leio os velhos, bonitos, os clássicos. Todos que procuro imitar, que eles imitaram e imitam também. Daí vem aquele papinho chato, escritor de blog? Não, não sou escritor de blog, o blog é um instrumento. Vá se foder. O blog é um instrumento até você achar uma editora que te banque. Até tudo que você pensa sair em forma de papel. Papel para vender. Onde uns meia dúzia pagam e você continua duro, porque não é um Paulo Coelho ou Ubaldo, nem está falando de sexo, doenças ou de cidades de deus. Daí você sai em papel e abandona o blog ou o transforma em instrumento de marketing pessoal, pra você vender o seu livrinho on-line medíocre, porque você não é uma Clarice Lispector, você não é um Paulo Francis, você não é um John Fante, você não é uma Hilda Hilst, você não é. Para mimar a sua vaidade, você quer o livrinho em papel pra descolar, quem sabe, uma notinha ou resenha em jornal, que vai dizer que você escreve de uma forma diferente e moderna o que outros cansaram de dizer. Ok, sem problema, faça o que quiser. Quem sou eu pra julgar? Pouco me importa, se você quer saber. Acabei de rasgar meu último livro agora. Rápido, não foi? Acredite se quiser. Mas, apesar de tudo, continue escrevendo se lhe der na telha, pois pode ser que um dia a gente aprenda e a vida pare de imprimir rascunhos.»

DISPERSOS. Discos em cima da mesa: Someone Else's Party, dos Durutti Column, Sin Embargo, de Wim Mertens, coisas soltas dos The Pogues, Tord Gustavsen Trio, um CD pirateado com canções do Cartola, e o fantástico Ed Motta. Eu sei que não tinha de sair coisa de jeito.

CORDEIRINHOS, 2. O amável Blogamemucho refere-se ao texto sobre as «obrigações fiscais» (que tema!); insisto num ponto: não se trata de discutir o imperativo das «obrigações fiscais», que me parece indiscutível, até do ponto de vista moral — mas de discutir as aplicações que resultam dessas obrigações. Ou seja, o aparentemente invisível «dinheiro dos contribuintes». Num país civilizado, as pessoas querem saber onde pára esse dinheiro, onde é ele aplicado e quem beneficia dele — até para não se sentirem apenas aliviadas na bolsa. Os impostos não cabem na categoria da caridade para com o Estado (ou de tsedakah, como poderia explicar o Nuno). Por isso, acho estranho aparecerem cordeiri nhos muito correctos que acham que não se devem discutir as contribuições ou o peso das nossas obrigações.

Fevereiro 19, 2004

CHINA. O ex-primeiro-ministro António Guterres foi à China avistar-se com os líderes do partido comunista local e declarou haver convergência «muito relevante», ou «larga convergência» em relação «aos desafios da globalização» e à reforma das Nações Unidas.
A questão chinesa é, de facto, relevante. Não pode deixar-se de lado, em qualquer discussão sobre o equilíbrio ou o desequilíbrio do mundo actual, a «questão chinesa». Ora, há aqui dois modos de ler a «questão chinesa» neste contexto. Para o capitalismo, ela significa, necessariamente, a existência de um mercado de milhões de consumidores. Esse é o dado mais relevante, que passa por cima de minudências ideológicas e de vulgares atropelos aos direitos humanos. É evidente que essas minudências ideológicas e esses atropelos aos direitos humanos (que incluem prisioneiros políticos a viverem em condições desumanas, massacres de populações inteiras nas províncias, ocupação ilegal do Tibete, fuzilamentos arbitrários e sumários de cidadãos, controle da internet, etc., etc. – um longo etc., aliás) deviam fazer parte das nossas preocupações. Sobre isso, Hu Jintao, secretário-geral do PCC, assegurou a António Guterres que a China «colocará de lado as questões ideológicas»; como se supunha. Quando Jiang Zemin esteve em Portugal, em visita de Estado – e o dr. Almeida Santos lhe cantou fados de Coimbra –, essas questões já se colocavam, mas não sei se Guterres manifestou ao governo da China as mesmas inquietações que já se lhe conhecem (inteiramente justificadas, aliás) sobre os prisioneiros de Guantánamo, detidos ilegalmente, pelos EUA.
No meio das hipocrisias estratégicas que alimentam os ressentimentos de esquerda e de direita hoje em dia, nenhum combate é mais justificado do que o combate pela liberdade e pelos direitos humanos. Periodicamente, alguns intelectuais e líderes políticos manifestam a sua compreensão pela existência de regimes totalitários e de prisões políticas. Não vejo razão para que Nadine Gordimer, prémio Nobel da Literatura, por exemplo, tenha dito que os princípios de justiça e de direitos humanos não se podiam aplicar a Cuba, pelo facto de ser um pequeno país onde há pobreza. Geralmente, essas declarações de apoio às prisões políticas ou aos fuzilamentos de Cuba, vêm de intelectuais que vivem em regimes democráticos, onde existem liberdade de imprensa, eleições, direitos de autor e liberdade de movimentos.
Nessa matéria, esquerda e direita têm as mãos sujas. Em alguns casos, é difícil livrarem-se dessa sujidade, razão pela qual a invocação de «princípios» e «valores», em matéria de geopolítica mundial, seja cada vez mais problemática. Nesse universo quase nunca existiram princípios nem valores, como aliás se sabe.
Causa no entanto apreensão que António Guterres tenha declarado, em nome da Internacional Socialista, existir convergência com a China em matéria de «desafios da globalização», a menos que o discurso sobre a globalização possa ter dois cenários diferentes: dentro das fronteiras chinesas e, claro, na Europa ou nos Estados Unidos da América. Como se os «desafios da globalização» permitissem, na China (que tem cerca de um terço da população mundial) «pôr de lado» questões ideológicas tão fundamentais como os direitos humanos ou a liberdade. Sobre isso, convém dizer, a China tem uma larga tradição. Sempre pôs de lado os direitos humanos e a liberdade. Estão nas prisões ou debaixo de terra. Ou nem isso.

CORDEIRINHOS. Eu sei que Berlusconi é um personagem – como se diz? – «controverso». Não inspira confiança. Ele diz uma coisa e apetece pensar o contrário. Nunca lhe compraríamos um carro em primeira mão. Tudo isso. No entanto, hoje, ao fazer a «revista da imprensa» habitual, de manhã, reparo em vários comentários sobre uma declaração estapafúrdia de Berlusconi acerca da «evasão fiscal». Geralmente em nome de uma correcção política que deixa logo margem para dúvidas, muito moralista e sacerdotal. Sim, o país tem uma elevada taxa de «evasão fiscal» ou de manobras para fugir aos impostos praticadas por «sectores dinâmicos» da economia – desde construtores civis a bancos, passando por advogados, jogadores de futebol e cavalheiros da indústria. Mas também tem uma «sociedade civil» fraca que raramente questiona a natureza dos impostos que paga, ou a qualidade da sua aplicação. Não me refiro à cantilena sobre «o dinheiro dos contribuintes», mas não me assusta a perspectiva; acho que é discutível. E quando digo que é discutível, isso significa que se deve discutir. Sendo certo que todos somos obrigados a pagar impostos, e que isso constitui uma obrigação moral, também é verdade que devemos discutir a aplicação dessas constribuições. E pô-la em causa não é pecado nenhum, ao contrário dos cordeirinhos que, arrastados por Berlusconi, acham que toda e qualquer dúvida lançada sobre a «obrigação fiscal» é um crime em absoluto. Não é.

ÁRVORES À DISTÂNCIA. As árvores da minha vida estão agora mais verdes. Vejo-as à distância, em fotografias. Isso basta-me nesta altura, como se não houvesse outras árvores, depois de um dia fechado entre paredes.

PRESIDENCIAIS. Pacheco Pereira tem razão no seu artigo de ontem no Público: não se conhecem grandes ideias de Pedro Santana Lopes sobre a presidência da República. Aliás, não se lhe conhecem grandes ideias.

Fevereiro 18, 2004

FLOR DE OBSESSÃO. O Pedro Lomba encerrou, parece que com carácter mais definitivo, o seu blog. É uma pena: Pedro Lomba escreve bem e os seus textos vão fazer falta. Ao contrário da tendência geral da blogosfera (portuguesa e não só), o Flor de Obsessão não alinhava no tom ressentido que se tem instalado. O Pedro é um cavalheiro num país que já desaprendeu o significado dessa palavra. Mas ele escreve por aí.

Fevereiro 16, 2004

EMANUEL FÉLIX. [Outubro de 1936-Fevereiro de 2004] «Porque eu voltarei a cobrir a cabeça de cinzas,/ calçarei as sandálias, tomarei de novo o meu bordão de buxo...»

Fevereiro 14, 2004

A NOITE, O QUE É?, 40. Nunca mais dormi. Nunca mais a noite foi noite nem o dia lhe trouxe mais luz.

POR CAUSA DOS POEMAS. «Creio no entanto o meu amor tão raro/ quão falsas ilusões a que o comparo.» [W. Shakespeare]

Fevereiro 13, 2004

O QUE É UM ROUBO?, 5. Escreve, por mail, F. M. S. F., outro correspondente por correio electrónico, a quem agradeço os esclarecimentos: «Trabalho na Banca (Informática) há vinte e cinco anos, o que me coloca na categoria dos "velhos" com mais de 50 e nunca vi nenhuma recomendação (?) do BP dizendo que os depósitos em numerário só se tornam efectivom a partir do dia seguinte, tal como J.F. afirma. A única diferença entre um depósito feito em numerário e um efectuado em valores (só cheques é redutor) é a necessidade de "boa cobrança" dos segundos e consequente disponibilidade do valor depositado, que no caso de numerário deve ser imediata. Um depósito afecta sempre o saldo contabilistico de uma conta, no exacto momento em que é feito, e o saldo disponivel de acordo com a natureza dos valores depositados (numerário ou valores dependentes de cobrança). Em nenhuma circunstância o dinheiro depositado fica no "limbo".
Existem algumas excepções como sejam os Cofres Nocturnos (que provavelmente o Francisco apreciará), mas neste caso o cliente assina um contrato com o banco, em que aceita explicitamente a contagem a posteriori dos valores depositados, o que, pela descrição não parece ser aplicável. Provavelmente, JF confundiu o cálculo de juros com a disponibilidade em capital. Aqui sim, pode falar-se de "roubo". Se fizer um depósito na sua conta e o levantar no momento seguinte perdeu pelo menos um dia de juros porque, aí sim, o BP determina (não "recomenda") que o cálculo de juros para depósitos é feito a partir do dia útil seguinte e o de levantamentos é feito a partir do próprio dia. O comentário de JF contém uma outra imprecisão. Ao não revelar o depósito na conta do cliente, o banco diminui a sua responsabilidade no BP, uma vez que todos os bancos têm que manter na sua conta provisional num valor percentual do somatório dos saldos das suas contas de operações passivas.»

O QUE É UM ROUBO?, 4. A questão do depósito «em numerário» que o banco não disponibilizou mereceu uma pequena chuva de mails, que agradeço. Sobretudo aquele, divvertido, que perguntava logo a abrir: «Ó homem, mas de quanto é que V. precisa?»
A questão é clara: o banco desviou o dinheiro que lhe confiei, ao nem colocar «online» o saldo depois do depósito, surripiando não apenas eventuais juros (não era isso que estava em causa), mas sobretudo um acto que tinha sido praticado e reconhecido (pelo talão informático): o depósito de uma certa quantia em dinheiro. As explicações de J.F. num mail do próprio dia avançavam que se tratava da aplicação de uma directiva do Banco de Portugal. Assim, quando o cliente de um banco entrega uma quantia em numerário, o banco pode só disponibilizá-la no dia útil seguinte. Posteriormente, também por mail, J.F. esclarece que, se eu tivesse efectuado o depósito numa sexta-feira, arriscar-me-ia a só ter o dinheiro disponível na segunda-feira. Escrevia ainda J.F. que movimentar a conta no mesmo dia pelo cartão Multibanco era uma operação ainda mais complicada porque não seria o banco a pagar-me, mas sim a SIBS.
Ora, tudo isso está muito bem, mas não é uma explicação convincente. Não sendo economista nem jurista, se isso acontecesse estaríamos diante de uma situação de abuso por parte da banca. Ora, isto não tem relação nenhuma com o dinheiro propriamente dito (fica claro, Carlos?), mas com os direitos dos cidadãos ou dos clientes dos bancos. Em muitos casos, a banca (tal como o Estado se habituou a fazer) trata mal os cidadãos; surripiar-lhes dinheiro (ou qualquer outra informação) de um saldo é uma falta grave.
O Mata-Mouros explicou muito bem o dilema. Mas eu acrescentaria isto, insistindo: meu caro L.R., trata-se de um roubo, seja qual for a opinião que ambos tenhamos sobre a «competitividade do sector». Conta-se porquê no texto a seguir.

Fevereiro 12, 2004

MICROSOFT COM MEDO DA ESTRELA DE DAVID. A Microsoft resolveu fazer um update no Bookshelf Symbol, uma tabela de símbolos gráficos que podem ser usados como fonte: «Critical Update for Windows (KB833407). This item updates the Bookshelf Symbol 7 font included in some Microsoft products. The font has been found to contain unacceptable symbols.» Recebo a novidade (uso Mac) através do Jaquinzinhos que dá conta dessa reforma no Bookshelf 7, de onde é retirada, por exemplo, a cruz suástica. Mas, ao mesmo tempo, a Microsoft inclui a estrela de David entre os «unacceptable symbols» – que desaparece do catálogo. Escuso de comentar ou de juntar adjectivos. Protestos podem ser enviados para o endereço clientes@microsoft.com da MicrosoftPortugal, e para o Costumer Support do site da Microsoft.
Esta palermice billgateana não acontece nos Macintosh.

O QUE É UM ROUBO?, 3. O Rui Branco, do Adufe, avisa com a presciência dos sensatos: cuidado que a entidade reguladora para tratar desses assuntos é o Banco de Portugal. Eu e o Rui já ironizámos sobre a matéria, evidentemente, uma vez que a directiva que manda disponibilizar depósitos à ordem apenas no dia útil seguinte é, precisamente, do Banco de Portugal. O que me recorda que os deputados portugueses (como assinalei mais em baixo, em «Revista da Imprensa, 2.»), aprovaram uma lei em cujo preâmbulo se declara que o telefone, por exemplo, deixa de ser serviço público essencial. Vejamos: a questão não está no «serviço público essencial», nem no telefone, mas no que vem a seguir como justificação: a constatação de que existe um «elevado nível de protecção dos consumidores no seu relacionamento com as empresas». Um «elevado nível de protecção dos consumidores»? Ora bolas.

UM DESABAFO ESTRANGEIRO. Um dos blogs mais originais «com redacção em Lisboa» é o Diário de Lisboa [«The Lisbon Giraffe»]. É escrito em português perfeito, por uma tradutora brasileira que também mantém um fotoblog [«Monteverano»]. No seu blog escreve sobre Portugal, sobre os portugueses, sobre o Brasil. [Em sentido contrário, o de uma portuguesa que vive no Brasil, há, por exemplo, o Sushi/Leblon]. Agora, encontro no Diário de Lisboa [«The Lisbon Giraffe»] um reparo que vale a pena reter, e que diz respeito às suas tentativas de se fixar em Portugal a trabalhar na sua área: foi dispensada de um trabalho por causa do sotaque. Vale a pena ler as suas aventuras e o seu desabafo mais recente sobre a qualidade do trabalho em Portugal.

Fevereiro 11, 2004

O QUE É UM ROUBO?, 2. Num mail mais do que eficiente e simpático, J.F. explica o segredo da operação bancária citada mais abaixo. Escreve o excelente J.F.: «O problema da banca, hoje, é que está a despachar todos os “velhos” com mais de 50 anos, os tarimbeiros, e à frente encontram-se novatos “doutorados” cada vez mais incompetentes, por desconhecimento, do que é a prática bancária. […] Tem razão e o banco também tem razão. E porquê? É assim: uma directiva do Banco de Portugal, dos anos oitenta, refere que o depósito feito com cheque, ou cheques, só se torna efectivo após boa cobrança. Em numerário, só se torna efectivo no dia útil seguinte. E é assim para todos os bancos. Só se lamenta não o terem explicado. […] E assim, o banco também poupa uns milhões em saldos médios que são o indicativo para o pagamento de juro. Nas contas a prazo é a mesma coisa, não se esqueça.»
Eu compreendo a directiva do Banco de Portugal. Mas fica aquela pergunta: bom, e o que acontece durante esta noite com o meu dinheiro, que não o vejo nos saldos? O banco, portanto, não poupa apenas em «saldos médios». É a vida.

PORTUGAL EM NÚMEROS. Fui alertado, por um texto já antigo do Rui Curado Silva, no Klepsydra, para um facto aparentemente insólito (ele comentava a questão emigrante em Portugal): o de haver mais portugueses a sair de Portugal do que estrangeiros a entrar. Ora aí está um facto que fala por si.

POR FALAR NISSO. O A Aba de Heisenberg, depois de reordenar os seus links, estacionou o Aviz na categoria dos «Deterministas». Até aqui tinha duvidado de tudo aquilo de que Stephen Jay Gould duvidava. Era um céptico. Agora, não sei.

CORRECÇÃO TEOLÓGICA. O Tiago, introduz algumas correcções na história do «inferno» («Calar, Calar,2.» e «Alguma Coisa Deve Haver, Sim»). Tudo teria começado com uma miúda que acusou um colega de «invocar o nome de Deus em vão»; o outro mandou-a «para o inferno». Esta correcção de linguagem («invocar o nome de Deus em vão») lembra-me sempre as discussões sobre o próprio nome de Deus. Os ortodoxos (desta banda, Tiago) escrevem «D'us» em português ou «G'd» em inglês. Ao não escreverem o nome, deixam incompleta uma suspeita sobre a sua designação. Sempre me pareceu que o Deus dos ortodoxos — embora distintivo, imaculado — estava incompleto; falta-lhe uma respiração. Uma letra fatal.

O QUE É UM ROUBO? Uma pessoa entra no banco. Faz um depósito — em «numerário», como se deve dizer. E vai à sua vida. Dez horas depois usa o cartão Multibanco e passa pela pequena vergonha de ver escrito «não autorizado» no visor da máquina de débito. Vai a uma máquina de Multibanco, para conferir, e vê que não está creditado o depósito que fez. Então, pergunta-se: «Onde está o meu dinheiro?» Telefona para a «linha directa» do banco (que não é o seu banco, mas é um banco), de noite, para saber o que fizeram do seu dinheiro. «Ah, pois, por razões operacionais não creditaram o dinheiro na sua conta...» «Mas eu fiz um depósito em numerário, em dinheiro. Portanto, quero saber onde está esse dinheiro.» «Meu caro senhor, de certeza que está guardado no seu banco e amanhã, em princípio, deve estar disponível.» «Não me parece. Eu entreguei dinheiro no banco. Fui ver o saldo da minha conta, e ele não está lá...» «Garanto-lhe que está.» «Não está. A máquina do Multibanco diz-me que não está lá. Eu quero saber o que fizeram dele.» «Mas eu já lhe disse, o dinheiro está connosco, só que ainda não está disponível.» «Não está disponível? Mas eu não emprestei dinheiro ao banco, nem pedi dinheiro ao banco. Nem depositei um cheque. Eu depositei numerário na minha conta. Mas, pelos vistos, não está lá.» «O senhor tem comprovativo do depósito?» «Tenho. Está a desconfiar?» «Não... Mas posso garantir-lhe que o seu dinheiro está no nosso banco. Está guardado, amanhã já pode usá-lo.» «Compreendo. Mas eu queria usá-lo hoje.» «Não é possível. Hoje não é possível.» «Porquê? O banco precisava desse dinheiro e tirou-o de lá, e só mo devolve amanhã?» «Não, não... Por razões operacionais não deve ter sido possível pôr o dinheiro na sua conta.» «Há um equívoco: não é o banco que põe dinheiro na minha conta. Fui eu que pus o dinheiro na minha conta. Mas ele não está lá. O banco tirou-o de lá. O banco roubou-mo.» «Não! O banco não roubou o seu dinheiro!» «Então, onde está o dinheiro que eu precisava para hoje?» «Só pode levantá-lo amanhã.» «Mas eu preciso dele hoje, agora. Hó pouco sorriram, para o lado, quando apareceu a palavra ‘não-autorizado’ na máquina de débito de uma loja. E eu precisava dessa coisa, que ia comprar, para hoje.» «A sua vida depende disso?» «A minha vida depende disso.» «Pois terá de aguardar para amanhã.» «Compreendo. O banco só me dá o meu dinheiro amanhã, é isso?» «É, é isso.» «Então, onde foram com o meu dinheiro hoje? Levaram-no a jantar fora?» «Não é caso para brincar.» «Eu também acho.» «Como já lhe disse, isto deve-se a razões operacionais. Há muito trabalho no banco.» «Eu também tenho muito trabalho e até me custou ter de arranjar tempo para ir ao banco depositar nessa conta à ordem. Mas os senhores é que me enganaram. Tenho um talão de computador a dizer que depositei o dinheiro. Dinheiro mesmo. Mas os senhores acham que eu não posso gastar o meu dinheiro hoje, quando é fundamental que o tenha. Eu sei que de vez em quando me distraio e gasto mais do que devia, mas é um assunto pessoal, e nem é uma coisa por aí além... Os senhores não têm o direito de me proibir de gastar o meu dinheiro.» «Agora não se pode fazer nada. Nem tenho acesso ao sistema...» «Emprestaram o meu dinheiro a alguém? Se for assim, eu também quero ganhar alguma coisa com isso.» «Não. Não emprestámos. Ele está lá. Mas não está disponível. Isso acontece com muitos bancos.» «Nunca me aconteceu.» «Há sempre uma primeira vez.»

Fevereiro 10, 2004

CALAR, CALAR, 3. Não me surpreenderam as reacções sobre a exibição mamária de Miss Jackson entre nós. Sinceramente, o assunto não nos afecta, mas sempre serve para mais anti-americanismos de pacotilha; e a história toda, no seu conjunto, à mistura com as reacções das televisões e do Estado, dá vontade de rir. Liberais, somos liberais. E temos alguma bonomia de reserva. E até, convenhamos, entre a rapaziada, alguma concupiscência, mesmo que não se conheça nem se aprecie a música de Miss Jackson. Imaginei então que, na transmissão da final da Taça de Portugal pela televisão (suponhamos, a RTP, por exemplo, com a sua emissão worldwide…), uma cantora decide exibir o seu simpático seio diante das câmaras e do arvoredo do Estádio Nacional. Não que a coisa me preocupe, evidentemente. Mas a moral para fora de portas é sempre mais fácil de exercitar.

CALAR, CALAR, 2. Um dos meus correspondentes por email, J.B., comenta o pequeno texto anterior sobre aquele miúdo americano que foi suspenso da escola por ter mandado uma colega «para o inferno». Eu incluí a questão na «área teológica», respondendo longinquamente a uma ideia do Tiago, mas J.B. chama a atenção para um pormenor interessante: em Portugal, um aluno do básico ou do secundário pode mandar um professor à merda sem lhe acontecer seja o que for. Não é uma grande vantagem, de facto.

CALAR, CALAR. O Jorge Marmelo chama a atenção para o inquérito do Público sobre a eventual «proibição» de os chamados dirigentes dos clubes de futebol falarem antes dos jogos. Se se tratasse apenas de futebol, o assunto estaria arrumado. Mas não. Portugal transformou-se, aos poucos, num território para fanáticos e moralistas. A tentação de «proibir» alguém de falar é comum ao desporto e à política. De vez em quando, aliás, aparece uma luminária defendendo que outra luminária não deve falar sobre as presidenciais, a reforma da lei eleitoral ou os títulos de primeira página dos jornais; esta legitimidade para mandar calar os outros tem vindo a desenvolver-se num país cada vez mais tagarela, o que é estranho. Curiosamente, essa tentação vem sempre acompanhada de um fervor legislativo que, na maior parte das vezes, deixa buracos suficientemente proveitosos para quem gosta de ludibriar a nova lei. [Também é outro aspecto importante da vida portuguesa, a vontade de legislar sobre tudo o que apareça à frente, com o argumento de que o bom-senso já desapareceu.]
Já em anos anteriores houve uma tentativa, por parte da Liga de futebol, de vigiar o discurso dos «dirigentes» e «agentes» da bola. Também aí se colocava um problema de legitimidade: quem iria vigiar a gramática, o léxico e as metáforas de um cavalheiro que os jornais se derretem por ouvir? Que penalização se lhe iria atribuir? Desta vez, depois das recentes pancadarias futebolísticas, a iniciativa reapareceu: agora, a solução era proibir os «dirigentes» de falar sobre as arbitragen s antes dos jogos. Sinceramente, não é agradável ler essas declarações e, ainda menos, ouvi-las dos próprios. Mas esta «lei da rolha» é tão ridícula, só no conceito que arrasta consigo, que tem todas as probabilidades de alguém insistir mesmo em levar a coisa por diante.

Fevereiro 09, 2004

ALGUMA COISA DEVE HAVER, SIM. Um miúdo americano de nove anos foi suspenso na escola e admoestado depois de ter dito «Vai para o inferno!» a uma colega sua, que foi queixar-se aos pais («ficou traumatizada»), que foram queixar-se à escola, que foi queixar-se aos pais do rapaz. O inferno deixou de ser uma categoria teológica.

HILDA HILST, 6. «Perderás de mim/ Todas as horas// Porque só me tomarás/ A uma determinada hora.// E talvez venhas/ Num instante de vazio/ E insipidez./ Imagina-te o que perderás/ Eu que vivi no vermelho/ Porque poeta, e caminhei/ A chama dos caminhos// Atravessei o sol// Toquei o muro de dentro/ Dos amigos// A boca nos sentimentos// E fui tomada, ferida/ De malassombros, de gozo// Morte, imagina-te.»

WEBLOG.PT. Eu não uso, mas não se trata de nenhuma embirração; simplesmente, não me dá jeito (e sou preguiçoso...) transportar o template do Aviz para a plataforma weblog.pt, que é um dos sinais de maioridade para os blogs portugueses. Penso, além disso, que o trabalho do Paulo Querido tem sido de excepcional relevância na divulgação e no apoio à blogosfera portuguesa. Assim dito, tão pomposo, pode parecer mentira – mas não é. O weblog.pt merece ser apoiado e o Paulo Querido, nesse seu trabalho, merece que o distingamos. Por isso, para suportar as despesas do alojamento em weblog.pt, existe uma conta para donativos (clicar aqui) onde se aceitam contribuições.

BOOKLIST. Acho sempre uma surpresa ver Marcelo Rebelo de Sousa na TVI passar de um romance para um livro de preparação para o parto, de um estudo sobre o túmulo de D. Pedro para uma monografia sobre a Gafanha da Nazaré. Tanto assim é que, depois, já não causa surpresa, ao longo da sua presença no ecrã, ver como passa das suspeitas sobre a CIA para a reforma da administração pública, das eleições americanas para a vida do PP e para o Open da Austrália, de Ferro Rodrigues para José Mourinho. Aquilo que poderia ser a esquizofrenia do comentário passa aos nossos olhos como um cirtuito pedestre de domingo, com umas paragens aqui e ali, nos lugares onde o passeante se sente mais à vontade. Que seja. Mas os livros, isso, parece-me sempre surpresa, sim. Aquela velocidade que, aos admiradores incondicionais, supõe uma dedicação inteira ao estudo, às noites de leitura e à bibliomania, lembra-me aquela motorizada que aparece na praça da cidade no Amarcord, de Fellini: de vez em quando, vinda da escuridão, lá aparece ela, inesperadamente.

Fevereiro 06, 2004

REVISTA DA IMPRENSA, 5. No «inquérito» que ocupa a última página da Grande Reportagem de amanhã, sábado (sim, com o JN e o DN), Manuel António Pina completa a frase «Pode ser que um dia consiga...» com esta declaração: «...vencer os meus preconceitos e ler um livro de Saramago (ou de Lobo Antunes) até ao fim.»

REVISTA DA IMPRENSA, 4. Duas notícias. Uma, que vem na Vanity Fair: nos EUA, ter um cinzeiro imaculadamente limpo numa zona para não-fumadores dá direito a multa. Em seu lugar, suspeito, pode colocar-se uma arma. Isso não dá direito a multa. Simpático.
Segunda, já na categoria da não-notícia: a amostra peitoral de Miss Jackson durante o Super Bowl, na sequência da sua coreografia em que simulava devaneios sexuais com o outro cantor de que não fixei o nome, chocou a América. Foi obrigada a pedir desculpas. Mostrar a estrelinha-ao-peito para aqueles milhões de espectadores é capaz de provocar sublevações sim. Mas, mesmo assim, acho que seria uma solução para relaxar os frequentadores do estádio de Guimarães, por exemplo, ou os jogadores do Boavista.

REVISTA DA IMPRENSA, 3. De repente, as notícias sobre a retirada de colonos da Faixa de Gaza deixa de ter qualquer interesse, e eu compreendo. Há uma onda de descrença sobre a matéria. Mas não deixa de ser curioso que a má informação continue a existir. O Diário de Notícias escrevia há dias que Kfar Derom é um colonato perigoso. Ora, Kfar Derom existe desde o princípio dos anos vinte. Mas este é só um exemplo. O principal de tudo é a ironia da história: quando Israel negociou com o Egipto a retirada do Sinai antes dos acordos de paz que vinham interromper a «questão territorial» que vigorava desde a guerra do Yom Kippur, o general que iniciou o desmantelamento dos colonatos chamava-se Ariel Sharon. A principal exploração agrícola do Sinal, Ben Atzmon, partiu para os limites da Faixa de Gaza na altura, na zona de Gush ‘Katif. Será um dos primeiros a ser evacuado no plano de Sharon. Há dois anos foram mortos vinte e dois alunos da sua escola, num assalto nocturno. A terra não vale o que vale. Já se devia saber isso.

REVISTA DA IMPRENSA, 2. As distracções dos deputados merecem estudo mais vasto. Mas a lei que agora foi aprovada na AR (Público de hoje) diz-nos que o telefone «deixa de ser serviço público essencial», com a nota de que existe um «elevado nível de protecção dos consumidores no seu relacionamento com as empresas».

REVISTA DA IMPRENSA. O Correio da Manhã traz uma notícia na última página: quatro mulheres, brasileiras, teriam sido mortas e enterradas nas traseiras de uma discoteca & bar de alterne nos arredores de Mirandela. A polícia faz rusgas de vez em quando para deter imigrantes ilegais, e é uma obrigação sua. Mas, ao longo das últimas décadas, centenas de discotecas & bares de alterne apareceram a rondar todas as estradas municipais e nacionais, arredores de cidades de província ou bairros suburbanos, abertas por «empresários da noite» que actuam com ligeireza e determinação, contratando e escravizando imigrantes ilegais e prostitutas compradas às redes portuguesas, galegas, brasileiras, russas e ucranianas. Portugal, essa província cheia de melros a cantar nas oliveiras, é o que é.

ACORDAR CEDO. Acordar cedo, muito cedo, seis da manhã, sem despertador, sem ruído. Acordar só, porque não se consegue dormir. Acender a luz, ver a primeira luz do dia, fria e nublada. Acordar cedo é o princípio de uma harmonia desconhecida.

MORTE. A morte de Hilda Hilst veio a despropósito. Há uns dias, tinha começado a citá-la aqui. Para quem quiser ler uma entrevista de Hilda, consulte a colecção da Ler. Para quem não leu nada, antes, a sua poesia está disponível.

Fevereiro 02, 2004

TECNICAMENTE. Diante da esquizofrenia, da manipulação, do excesso — tudo a passar na televisão —, recordo aquela aparição de Paulo Francis no «Manhattan Connection» de há muito tempo: «Declaro-me tecnicamente morto.»

FANTASMAS. Estou a ler e a divertir-me. Pessoa aparece no meio de um vendaval semeado por Manuel Jorge Marmelo. O livro tem o título Os Fantasma de Fernando Pessoa, e a colecção é a Literatura ou Morte, da Asa.

NEM DE PROPÓSITO. Sim, parece que de repente toda a gente ficou muito certinha a propósito de futebol; obrigado pelos mails, por isso, falando do meu «lado hooligan». Agradeço penhorado. Não andei à pancada nos estádios, não chorei vivos, não deixei de felicitar os vencedores (nem de brincar com os derrotados, evidentemente), não fiz depender a minha alegria dessa outra alegria. Escrevi, apenas, sobre o «lado hooligan», e em seu nome. Nem de propósito, outros energúmenos andaram à pancada, confirmando tudo: que sim, que as coisas iam ser melhores depois do luto nacional e da solidariedade das instituições e dos abraços chorosos. Ora, quem não os conhece, que os compre.
Por que é que as pessoas não se limitam a ser normais, sem ter de erguer estandartes, convulsões radicais (ah, agora vamos ser todos bons...), optimismos exagerados (com estes estádios, tão novinhos, é só gente civilizada...)? Já sabemos: a sensibilidade à beira do exagero e da perdição deixa-os mais visíveis, mais elogiáveis, mais humanos; mas a verdade é que o futebol é mesmo assim, coisa de explosões. Esse é o futebol de que eu gosto. Não se armem em anjinhos, nem venham com mais moral. Moral, aliás, temos bastante, em doses mais do que necessárias e servidas todos os dias. O que fazia falta é que fôssemos pessoas normais, sensatas quando é preciso, disparatadas quando vem a propósito. Se houvesse mais gente normal, uma série de jogadores seria proibida de jogar até ao fim da época, o estádio do Guimarães seria interditado, meia-dúzia de «dirigentes» seriam suspensos ou castigados, ou lá o que é, alguns árbitros desceriam de divisão. Isso sim, seria normal. E, se houvesse essa normalidade, nós poderíamos ver futebol à vontade, sem moral nenhuma.

Fevereiro 01, 2004

O LADO DE HOOLIGAN. Sim, o Sporting jogou bem. Mas Lucílio Batista, caramba, foi muito bom. Confirmou-se como o árbitro português que mais vezes é «enganado» («induzido», dizia um comentador) para assinalar penaltis. E que precisão.